A burguesia midiática

Até onde eu sei, o conceito de burguesia midiática só existia até agora em minha cabeça. Com a publicação deste artigo, ele passa a existir no mundo exterior, passa a ser um conceito público. O que é burguesia midiática? É aquela parte da classe capitalista que tem na exposição à mídia sua fonte primária de recursos financeiros. Refiro-me aos astros e estrelas do mundo dos esportes e do mundo das artes e espetáculos. Eles têm em comum o fato de serem riquíssimos e de serem idolatrados pela maioria do público ou por uma parte significativa dele. A burguesia midiática é formada pelas celebridades, a parte mais visível, mais aplaudida e aclamada da classe econômica e politicamente dominante. A burguesia midiática é formada por Mick Jagger, Keith Richards, Bono Vox, Romário, os Ronaldinhos, etc. São pessoas que se apropriam de uma parte absurdamente alta da riqueza socialmente produzida. Recebem das grandes empresas anunciantes e patrocinadoras uma gorda fatia do que essas empresas retiram de trabalhadores e consumidores. Os burgueses midiáticos são sustentados num altíssimo padrão de acumulação e consumo pela mesma sociedade que os idolatra como santos, semideuses ou mesmo deuses.

Os burgueses midiáticos substituíram a religião, o anticomunismo e outras formas ideológicas como principal esteio ideológico do capitalismo triunfante. Ao adorar seus ídolos no altar das telas de cinema e TV, no altar dos estádios de futebol e casas de show, nas ruas de Salvador ou nas praias do Rio de Janeiro, em Nova York, Londres, Paris ou Hollywood, a massa ignara confere ao sistema que põe a mesa de seus ídolos uma fortíssima dose de legitimidade. A adoração aos ídolos midiáticos legitima a exploração e a desigualdade, a concentração de renda e riqueza, a distinção arbitrária e ideológica entre dinheiro público e dinheiro privado.

A massa ignara se escandaliza, espontaneamente ou insuflada pela mídia, com salários de dez mil ou quinze mil reais no serviço público, mas acha normal, lindo e bacana que um Caetano Veloso ou um Zezé Di Camargo tenha dinheiro suficiente para resolver a vida de milhares de famílias carentes. O que essas pessoas não percebem é que o dinheiro que remunera os ídolos a peso de ouro vem do mesmo bolo que remunera trabalhadores com o salário mínimo, vem do mesmo bolo que remunera políticos, assessores e magistrados. O dinheiro é um só: vem da riqueza e da renda socialmente produzidas. Quando você compra um sabonete, uma parte do dinheiro vai para o Estado pagar senadores e deputados, outra parte vai para o Estado construir e recuperar estradas, uma parte maior vai para o governo pagar juros aos banqueiros e donos do capital, uma parte vai para o dono da loja, outra para o dono do shopping, outra para pagar os salários dos industriários e comerciários que produziram e venderam o sabonete, uma parte vai para o dono da fábrica, outra vai para os anúncios, patrocínios e investimentos que financiam a burguesia midiática e seus imensos privilégios, perto dos quais um senador é um pobretão (a não ser que, além de senador, ele seja também um riquíssimo empresário). Todas as remunerações têm a mesma origem: o sabonete, o feijão, o automóvel produzidos e comprados pelas pessoas comuns, pelo homem da rua, pelos membros da mesma massa que adora os ídolos, sem perceber que os sustenta.

No Brasil, aliás, o bancário paga a mesma alíquota de imposto de renda que o banqueiro, o farmacêutico paga o mesmo percentual que o dono da fábrica de remédios, o chefe de seção paga, em termos percentuais, tanto quanto Romário, Faustão ou Xuxa. E o governo do PT não fez absolutamente nada para mudar isso. Pelo contrário: foi em cima dos servidores públicos e dos aposentados, na famigerada reforma da Previdência. Mas isto é assunto para outro artigo.