A derrota dos Zés e a vitória do analfabetismo moral

Escrevo na quarta-feira 27 de outubro de 2010. No último dia 3 fez 50 anos que meu pai foi eleito governador da Paraíba. Mas isto é outra história, uma história muito mais bonita, uma história em que o povo punha trocados em garrafões para ajudar a campanha. Quanta diferença! Voltemos ao presente.

Errei. Confesso que errei. Se não confessasse, ainda assim saberiam que eu errei, porque o fiz publicamente. Previ as vitórias de Zé Maranhão e Zé Serra, e eles vão perder.

Maranhão, candidato da coligação PMDB/PT ao governo da Paraíba, cometeu dois erros estratégicos e um erro tático. Os dois primeiros foram: a) não contratar os concursados; b) o veto ao reajuste de 5% para os servidores públicos do Executivo estadual, o que reforçou a imagem que Maranhão já havia construído, em governos passados, de carrasco do funcionalismo. Mesmo assim, ele teria fechado a eleição em
primeiro turno se não tivesse cometido o erro fatal: faltar ao debate da Globo. Ele poderia ter faltado a todos os debates, exceto ao da Globo. Faltou a ambos os candidatos, Maranhão e Ricardo Coutinho (PSB/PSDB/DEM), menos de um ponto percentual para vencer logo em primeiro turno. Este ponto, e muito mais, Maranhão perdeu por ter faltado ao debate da Globo. Jogou fora um aeleição ganha.

Quanto a Serra, fez o que pôde. Enfrentando um presidente com alta popularidade, por ter encontrado a cama feita e ter enfrentado apenas uma turbulência ao longo de oito anos, ao contrário de seu antecessor, que se viu às voltas com cinco ou seis crises em seu período, Serra teve que se equilibrar numa corda bamba, encarando, por exemplo, a compra de votos institucionalizada chamada Bolsa Família e a pouca memória damassa ignara que não se lembra de que o programa Bolsa Família é apenas a junção do Bolsa Alimentação com o Bolsa Escola, programas do governo Fernando Henrique Cardoso. Assim como Alckmin em 2006, Serra foi vítima ainda de uma campanha insidiosa sobre supostas privatizações que seriam feitas em um novo governo tucano.

O PT colhe os frutos daquilo tudo a que ele se opôs, a começar pela Constituição de 1988 e passando pelo Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a privatização das telecomunicações, que nos levou, como bem definiu Serra, da Era do Orelhão à Era do Celular. O PT não merece colher esses frutos, mas a política não é feita de merecimentos.

Dilma Rousseff se beneficiou, também, do analfabetismo moral que grassa na maioria do eleitorado, especialmente naRegião Nordeste, a mesma que deu sustentação eleitoral ao regime militar (Lula é, assim, o herdeiro do regime militar). O analfabeto moral não quer saber de Mensalão, de “aloprados” pegos em flagrante com dinheiro ilegal para comprar dossiês, de quebra de sigilo fiscal de adversários, de tráfico de
influências na Casa Civil e de outros mal feitos. O analfabeto moral diz que é tudo coisa da“ imprensa golpista” , apesar de as evidências estarem na cara.

Se os perdedores das eleições são o Zé de lá e o Zé de cá, o grande vencedor é o analfabetismo moral, cuja força subestimei, tendo por isso errado minhas previsões sobre a eleição presidencial.