A metralhadora do pastor

Em entrevista à revista evangélica Eclésia (nº 106), o pastor Ricardo Gondim (nenhum parentesco), cearense radicado em São Paulo, pastor da Assembléia de Deus Betesda, disparou uma metralhadora giratória contra o atual movimento evangélico, no Brasil e nos Estados Unidos. A sensação começa pelo título da matéria: “O movimento evangélico está chegando ao fim”. Gondim critica o evangelismo de resultados, disparando: “A teologia da prosperidade produz uma enorme quantidade de pessoas decepcionadas com a Igreja e com Deus. Funciona com a mesma lógica do jogo de azar – milhões apostam, mas apenas alguns acertam”.

Sem dizer o nome da falácia, o pastor explica o sucesso da teologia da prosperidade utilizando o conceito de seleção de observações, uma das falácias mais comuns. Funciona assim, nas palavras do próprio pastor: “É esse mínimo de felizardos que dá plausibilidade ao sistema. Eu vou para um culto com cinco mil pessoas. Aí digo assim: ‘aqui há cem pessoas que vão ofertar mil reais, porque um anjo me disse que, nesta semana, elas vão ser abençoadas’. Ora, num grupo de cinco mil, pela própria lógica, eu tenho três ou quatro pessoas que, de fato, vão conseguir algum tipo de sucesso de qualquer jeito – e isso independentemente de ter ido ao culto ou não. É uma questão de estatística. Mas esses três ou quatro, amanhã, vão dar testemunho e dizer que a vida deles mudou porque foram ao culto e participaram da oração forte, etc. e tal. E, mesmo para aqueles que ofertaram e não receberam bênção nenhuma, há explicação: eles deram alguma brecha ao inimigo, não tiveram fé. Ou, então, não deram de bom grado, e, afinal de contas, Deus ama ao que dá com alegria. Ainda dá para transferir a culpa…”. Quando a revista lhe pergunta se as pessoas não vão acabar percebendo que nada lhes acontece e desistir de apostar em Deus, Gondim arremata: “Você acha que um dia as loterias vão acabar? Se um ganha, faz aquele alarde – então o sujeito pensa ‘puxa vida, é a minha chance’. A multidão vai na ilusão”. O pastor conclui: “Os critérios éticos da Igreja estão parecidos demais com os do mundo, onde o ‘dar certo’ é mais importante do que o ‘estar certo’”. Sábias palavras, que me lembram um trecho especial de uma letra da banda inglesa Supertramp: “right if you win, wrong if you lose”, ou seja, “certo se você ganhar, errado se você perder”.

Sobre os crentes americanos, Gondim não deixa por menos: “A direita republicana dos EUA identificou que a igreja evangélica empunha três grandes bandeiras conservadoras: oração nas escolas, batalha contra o aborto e, a mais recente, a luta contra o avanço do homossexualismo. Então, o Partido Republicano, muito espertamente, capitalizou o discurso de Bush em cima dessas coisas – e isso encanta, alucina o crente americano: ter um presidente que defende suas bandeiras. Infelizmente, a Igreja de lá tem deixado de lado outras bandeiras que deveria empunhar, como a defesa da justiça, dos direitos humanos ou a preservação do meio-ambiente. A falta de critérios é total. Não entendo como a Igreja se alia a um partido que defende o uso de armas, que é simpático à escalada armamentista dentro da própria população”.

Como se dizia nos anos 70, o pastor Ricardo Gondim falou e disse.