A paixão pelos livros
Minha primeira paixão por um livro não foi intelectual, mas física. Apaixonei-me por uma cartilha da alfabetização. Gostava de olhar para ela, de sentir seu cheiro, de tocar seu papel sedoso. O sentido da audição também se envolveu, quando passei a apreciar o som de suas folhas passando. O único dos meus cinco sentidos que nunca se apaixonou por aquela cartilha foi o paladar. Afinal, não sou um bovino, um caprino ou uma traça: não sou dado a comer papel nem meu estômago conseguiria digeri-lo. Aos poucos, fui me apaixonando também pelo som das palavras, pela música que resultava de uma leitura em voz alta. Em seguida, a leitura não precisava mais ser em voz alta, eu já era capaz de sentir a música em minha mente. Até hoje, ouço tudo o que leio e leio tudo o que ouço.
Quando assisto a um filme falado em inglês, transformo tudo o que é dito em legendas inglesas e transformo as legendas portuguesas em sons. Minha cabeça trabalha um bocado durante um filme, mas é tudo feito automaticamente, como um programa de computador. Não requer esforço. Quando dou de cara com uma palavra falada que não sei como se escreve ou com uma palavra escrita que não sei como se pronuncia, fico inquieto, o fluxo do pensamento se desvia para aquela palavra, tento adivinhar como ela se escreve ou se pronuncia, perco momentaneamente a concentração no que vinha fazendo. Na infância e na adolescência, eu pensava que todas as mentes funcionavam assim. Depois aprendi que eu fazia parte de um tipo específico de mente (“específico” não quer dizer superior ou inferior).
Aos poucos, fui me apaixonando também pelo conteúdo das palavras, das frases e textos que as palavras formam. Tornei-me um leitor compulsivo de literatura infanto-juvenil. Devorava as versões simplificadas de Júlio Verne e ficava triste quando o livro acabava. “Júlio Verne não sabe terminar suas histórias”, eu decretava, dando uma de crítico literário mirim. Na verdade, Verne não tinha culpa nenhuma. É que não era fácil mesmo, para o leitor, sair de um universo maravilhoso como o de “Viagem ao Centro da Terra” ou o de “Vinte Mil Léguas Submarinas” e voltar ao dia-a-dia. Os livros pelos quais mais me apaixonei naquela época foram “A Ilha do Tesouro”, clássico de Robert Louis Stevenson, e “Capitão Tormenta”, de um autor cujo nome não me recordo agora. “Capitão Tormenta” se passava no Mediterrâneo Oriental, na época – ali pelo Renascimento – das disputas entre os turcos (Império Otomano) e a República de Veneza. Os venezianos eram os mocinhos, é claro; os turcos eram os malvados. O herói do livro, o Capitão Tormenta, era uma bela mulher que se disfarçava de homem para ser aceita como guerreiro. Ainda tenho estes dois livros, em bom estado. Qualquer dia desses vou relê-los. Ou seria melhor não quebrar a magia e levar comigo até o túmulo aquelas deliciosas sensações de garoto? Capitão Tormenta for ever…
Os primeiros livros para adultos que li – lá pelos 12, 13, 14 anos – foram três coleções pertencentes a um vizinho, Seu Humberto, funcionário do Banco do Nordeste e organista da Primeira Igreja Presbiteriana, hoje falecido. Uma coleção abrangia todos os romances de José Lins do Rego. Li-os todos, fascinado. Outra resumia, em vários volumes, a história do mundo até o fim dos anos 60 do século 20. Li de cabo a rabo, viajando, por exemplo, nas batalhas entre os egípcios e os hititas e às vezes imaginando o que teria acontecido se o resultado de uma guerra tivesse sido outro. A terceira coleção, também lida integralmente, trazia a história do futebol brasileiro, dos primórdios até o final da década de 60. Vivi cada campeonato e cada partida, vibrei e sofri, senti saudades de tempos em que eu ainda não existia. E aprendi a ter nos livros um dos maiores sentidos de minha existência.



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