A tragédia de Shaolin e breves reflexões sobre Deus, carma, destino etc.

“Não cai uma folha de árvore nem um fio de cabelo sem que seja da vontade de Deus”, diz a Bíblia. Então foi da vontade de Deus o terrível acidente que vitimou o cidadão Francisco Jozenilton Veloso, mais conhecido como o comediante Shaolin. À beira da morte, correndo o risco de ficar com sequelas cerebrais e correndo o risco ainda maior de perder o braço esquerdo, que foi quase decepado no acidente, Shaolin, comediante de grande talento, está numa situação lastimável, em que cada alternativa para o seu futuro é pior do que as demais. O que é pior? Morrer no auge da vida e da carreira? Continuar vivo com sequelas neurológicas? Perder um braço?

Os fãs, amigos e parentes rezam, oram, fazem preces. Querem que Deus desfaça o que ele fez. Os espíritas acham que é carma. Shaolin estaria destinado, devido a atos seus em vidas anteriores, a passar por tudo isso. Nesta visão, o acidente não teria sido mais do que um teatro de marionetes, com o destino de Shaolin e o do outro motorista, Jobson Benício, controlados nos mínimos detalhes a partir do mundo espiritual por espíritos superiores ou por uma força impessoal e implacável chamada carma.

Eu prefiro acreditar na responsabilidade humana e no acaso. Alguém cometeu um erro (segundo consta até agora, o motorista do caminhão, Jobson Benício). O acaso, porém, também teve o seu papel, como geralmente acontece. Se um dos dois motoristas tivesse começado sua jornada uns poucos segundos antes ou uns poucos segundos depois, o encontro entre os dois veículos e entre as duas vidas jamais teria acontecido. Cada um teria chegado em paz a seu destino e não existiria esta tristíssima história.

A teoria do caos diz que pequenas causas podem ter grandes efeitos. O bater das asas de uma borboleta na China pode provocar uma crescente reação em cadeia que vai provocar um furacão nos Estados Unidos. Uma mulher se abaixa para pegar uma laranja que caiu de uma sacola, perde o controle do carro e fica tetraplégica. Um homem está abastecendo o carro num posto de gasolina no Rio de Janeiro e é atingido na cabeça por uma bala de fuzil disparada a dois quilômetros de distância. Era extremamente improvável que sua cabeça estivesse exatamente na trajetória da bala, mas estava. O improvável não é impossível. O improvável pode acontecer e muitas vezes acontece. Quando é benéfico é atribuído a Deus. Em todas as catástrofes naturais, várias pessoas escapam por pouco e Deus é louvado. O que não se vê é que nas mesmas catástrofes vários morrem por pouco. E ninguém pára para se perguntar por que Deus não impediu o desastre, em primeiro lugar, limitando-se a supostamente salvar um e outro.

E assim a vida vai, cheia de desgraças. Qualquer um de nós pode ser o próximo.