Acertos, “acertos”, erros e “erros” nas pesquisas eleitorais

Faltavam poucos dias para a eleição paraibana de 1986. Encontrei-me casualmente com Silvio Osias, então editor da TV Cabo Branco, hoje editor do jornal A União. Naquela época não havia ainda divulgação de pesquisas de intenção de voto na Paraíba. Silvio me perguntou se eu tinha conhecimento de alguma pesquisa para consumo interno do PMDB, partido ao qual eu era filiado e do qual o meu pai era um dos líderes na Paraíba. Eu disse a ele que sim, havia uma pesquisa: “Burity está eleito governador, com grande maioria sobre Marcondes Gadelha. E o PMDB faz também os dois senadores, Humberto Lucena e Raimundo Lira”. Silvio ficou estupefato com a previsão de que o ex-governador Wilson Braga, do PFL, perderia a eleição de senador para Raimundo Lira, um novato na política. Que Burity e Humberto Lucena seriam eleitos, ele achava normal. Mas Lira?! Braga derrotado numa eleição de senador que tinha duas vagas?! Silvio não acreditou. Pois Raimundo Lira não só foi eleito, como ficou com a primeira vaga de senador, com mais votos do que o veterano Humberto Lucena. Desde então, Silvio Osias passou a ver as pesquisas de intenção de voto com reverência quase religiosa.

Quatro anos depois, no entanto, o Ibope iniciou uma trajetória de erros ou “erros” (sem aspas, involuntários; com aspas, propositais) em eleições paraibanas. Wilson Braga, então no PDT, era dado como vitorioso já no primeiro turno, para o governo do Estado, e Marcondes Gadelha, do PFL, aliado de Braga, era tido como folgadamente vitorioso na eleição para o Senado, contra o peemedebista Antônio Mariz. A segunda previsão muito me angustiava, pois eu era um marizista roxo e sabia que a candidatura de Mariz ao governo em 1994 dependia de sua eleição como senador. O Ibope deu Marcondes Gadelha à frente até a pesquisa de boca de urna, quando Mariz apareceu três pontos à frente. Pois bem: Mariz ganhou a eleição com 18 pontos de maioria, resultado totalmente incompatível com a pesquisa de boca de urna. Braga não foi eleito no primeiro turno, ao contrário do que previa o Ibope, e acabou folgadamente derrotado na segunda votação. Erro ou “erro”? Neste caso acredito em “erro”: o instituto estava a serviço da coligação PDT-PFL.

Naquele mesmo ano de 1990, o Ibope “acertou” em Pernambuco e na Bahia, prevendo corretamente as eleições em primeiro turno dos pefelistas Joaquim Francisco e Antônio Carlos Magalhães (ACM), candidatos aos governos de Pernambuco e Bahia, respectivamente. Mas foi um “acerto” entre aspas, porque o Ibope dava a Joaquim Francisco e ACM índices próximos de 60% dos votos válidos, e eles foram eleitos com cerca de 51% dos votos válidos. Estranhamente, o altíssimo número de votos brancos e nulos só tirou votos de um lado e não foi captado pelas pesquisas. Erro ou “erro”? A verdade é que as pesquisas distorcidas ajudaram a eleger Joaquim Francisco e ACM, pois semearam o desânimo e o derrotismo nas hostes adversárias.

Voltando à Paraíba, aconteceu algo curioso na eleição para governador em 2002: o Ibope errou no primeiro turno, prevendo a eleição de Cássio Cunha Lima, do PSDB, sem a necessidade de segundo turno, e acertou na segunda rodada, ao prever a vitória do mesmo Cássio, com índices corretos para os dois candidatos. Já a empresa Consult acertou no primeiro turno, praticamente na mosca, e errou no segundo turno, ao prever o triunfo do peemedebista Roberto Paulino. O Ibope riu por último na Paraíba em 2002. E riu por último também em 2006, acertando as vitórias de Cássio Cunha Lima no primeiro e no segundo turnos, dentro das margens de erro.

Nas eleições presidenciais brasileiras, desde 1989, o Ibope e o Datafolha têm acertado. Já o Vox Populi e o Sensus erraram feio no primeiro turno de 2006, atribuindo a Alckmin, já na véspera da eleição, em torno de 30% dos votos, quando ele teve 41% dos votos válidos. Neste ano de 2010, há grande discrepância entre o Ibope e o Datafolha, de um lado, e o Sensus e o Vox Populi, do outro. Tendo um histórico de acertos em eleições presidenciais, o Ibope e o Datafolha levam clara vantagem no confronto contra institutos que erraram tão grosseiramente em 2006. Sendo assim, o Jornal Nacional, que não é mais a máquina de manipulação que foi em 89, decidiu só divulgar pesquisas Ibope e Datafolha, ignorando o Vox Populi e o Sensus.

Se dermos uma olhada na suposta ultrapassagem de Dilma Rousseff na mais recente “pesquisa” Vox Populi, veremos motivos fortes para desconfiança. Em primeiro lugar, há uma clara distorção pró-Dilma nos bairros selecionados na cidade de São Paulo. Estavam na pesquisa anterior e caíram fora nesta, por exemplo, os bairros de Perdizes e Bela Vista, redutos tucanos. Estavam na anterior e continuaram nesta, por exemplo, os bairros de Jardim Ângela e Grajaú, redutos petistas (não confundir com o Grajaú do Rio de Janeiro). Municípios que são redutos lulistas, como Serra Talhada (PE), Crateús (CE), Marizópolis (PB) e Tibau (RN), aparecem pela terceira vez consecutiva na “pesquisa” Vox Populi, repetição que é totalmente desaconselhada pelos estudiosos do assunto. Segundo o Vox Populi, Serra teria ampliado sua vantagem no Sul de quatro para 14 pontos. A diferença pró-Dilma no Nordeste teria se mantido estável, com oscilação de um ponto. E toda a reviravolta teria acontecido no Sudeste, com Serra caindo nove pontos e Dilma subindo oito, num deslocamento de 17 pontos percentuais em quatro semanas. Qual seria a causa de tamanha reviravolta? Os comerciais do PT? Mas por que os comerciais do PT não teriam ajudado Dilma no Nordeste e no Sul, apenas no Sudeste? É evidente que há distorções e maquiagens nesta “pesquisa”. Neste caso, não são apenas os erros e acertos que devem vir entre aspas, mas a própria “pesquisa” e o próprio “instituto”. O Vox Populi e o Sensus têm, nesta eleição, a função de se contrapor às más notícias (más para os petistas e seus aliados) que vêm do Datafolha e do Ibope, dando injeções de ânimo na militância, nos aliados e nos doadores. O Sensus e o Vox Populi não são institutos de pesquisa, mas instrumentos de campanha. Sob as barbas do TSE.