ANISTIA URGENTE: O presidente Lula, “cúmplice da tirania”, ataca presos políticos

A forma despudorada com que o presidente Lula, em entrevista concedida à Associated Press, atacou a dignidade dos presos políticos e debochou do uso que estes fazem da greve de fome merece repúdio formal e rigoroso de todas as entidades democráticas, muito especialmente daquelas ligadas aos Direitos Humanos, dentre os quais fulgura o direito à Liberdade.

Eu fui presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia – secção João Pessoa e hoje sou membro da Associação de Anistia da Paraíba. Pela primeira condição, recordo àqueles companheiros da velha luta o dever de não silenciarmos diante de ataques desse tipo, mesmo quando vindos de um presidente da República; como não silenciamos diante da ditadura militar. Pela segunda condição, proponho à Associação de Anistia da Paraíba repúdio formal à agressão do presidente Lula.

A fala de Lula foi uma cretinice. Vinda de quem veio – um ex-preso político que para ser eleito presidente contou com o esforço de muitos ex-presos políticos, dentre os quais muitos que se viram forçados a lançar mão da greve de fome como último recurso de resistência –; vinda de quem veio, é um escândalo.

Cretinice 1: “Temos de respeitar a determinação do governo e da justiça de deter as pessoas em função da legislação de Cuba”.

Sendo assim, nós outros, que enfrentamos a ditadura militar e lutamos pela anistia no Brasil, fizemos muito mal em desrespeitar o governo, a justiça e a legislação vigentes.

Cretinice 2: “A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas”.

Pretexto é o cacete! A greve de fome é um recurso válido e histórico nas lutas de libertação. Muitas vezes é o último recurso. Tem sido usado por milhares de heróis e mártires, inclusive brasileiros, inclusive alguns lulistas apaixonados. A greve de fome não pode ser descartada enquanto houver tirania no mundo. Nelson Mandela, por grande exemplo, na sua titânica luta contra o regime do Apartheid, lançou mão de duras greves de fome. Não, a greve de fome não pode ser descartada; muito menos pode ser debochada.

Cretinice 3: “Imaginem se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.

Equiparar preso político com ladrões, assassinos, estupradores e outros meliantes é uma boçalidade; vinda de quem veio, é uma boçalidade espantosa. Lula, além de ser ex-preso político, tem no seu partido e no seu governo alguns dos mais destemidos ex-presos políticos do Brasil. São, ou foram, todos eles desqualificados meliantes?

O bravo dissidente cubano Guillermo Fariñas deu uma resposta à altura; chamou Lula de cúmplice da tirania”. E acrescentou: “Parece que o poder fez que ele perdesse a memória. No passado ele foi um perseguido político”.

Guillermo Fariñas está em greve de fome. Eu não o considero um meliante. Eu o considero um herói.

Mundo afora, nos países democráticos, a fala de Lula vem sendo repudiada. No Brasil há uma reação ainda tímida, mas há reação e isto é muito bom. O senador Eduardo Suplicy, que nunca deixa de surpreender, mandou ver: “Gostaria que Lula se recordasse de algumas pessoas da história que fizeram greve de fome para alcançar um objetivo importante na história dos povos, como Mahatma Gandhi e Nelson Mandela”.

Belíssima surpresa vinda de um petista. Por outro lado, a candidata de Lula, Dilma Rousseff, ex-presa política que enfrentou a ditadura e a tortura (não sei se fez greve de fome), tomou uma atitude deplorável: “Vocês não vão me tirar aqui uma crítica ao presidente Lula. Nem que a vaca tussa”. Com efeito, ela não criticou seu ídolo, pelo contrário, respaldou-o com uma frase covarde: “Acho que são presos [os presos políticos de Cuba]. Não acho que são bons ou maus, são presos”.

É o fim. Quer dizer, uso esta frase de forma retórica. Na verdade, a subserviência do petismo em face da boçalidade autoritária do líder máximo, o “cúmplice da tirania”, está no começo.

É o fim.