Artigo de Natal: tudo errado

Em alguns dias celebraremos o aniversário de Jesus Cristo, que nasceu há 2.003 anos no dia 25 de dezembro na cidade de Belém. Certo? Não, tudo errado. O monge que calculou o ano do nascimento de Cristo cometeu um erro de alguns anos. Os Evangelhos dizem que, quando Jesus nasceu, o primeiro Herodes mencionado na Bíblia, aquele que mandou matar as criancinhas, ainda estava vivo. Ele mandou matar as crianças de até dois anos de idade justamente para eliminar o Messias que já nascera. Hoje se sabe que aquele Herodes (não confundir com o outro, posterior, que mandou cortar a cabeça de João Batista a pedido da dançarina Salomé) morreu em 4 a. C. Jesus nasceu, portanto, em 4 a. C. ou um pouco antes , entre 5 e 7 a. C. Não sabemos exatamente em que ano da era cristã nós estamos, mas certamente não estamos em 2003. Está perto de concluir-se o ano de 2007, 2008, 2009 ou 2010. Isto é ponto pacífico entre todos os estudiosos do assunto – ateus, agnósticos, católicos e protestantes. Cristo nasceu alguns anos antes de Cristo! Durante séculos se pensou que o monge calculara o ano sob a inspiração do Espírito Santo. Mas o Espírito Santo parece não ter dado muita importância ao assunto.

Não se sabe, também, o dia e o mês em que Cristo nasceu. Mas dificilmente foi em dezembro ou janeiro, a julgarmos pelos Evangelhos (os católicos ortodoxos ou orientais, da Rússia, da Grécia etc., comemoram o natal em 6 de janeiro). Um dos Evangelhos diz que na noite ou madrugada do nascimento havia pastores e rebanhos nos campos. Dezembro e janeiro são meses de inverno no Hemisfério Norte, época em que as temperaturas são muito baixas à noite na Palestina. Se Jesus tivesse nascido em 25 de dezembro ou 6 de janeiro, não haveria pastores e rebanhos nos campos à noite e de madrugada. É provável, por conseguinte, que ele tenha nascido no verão ou na primavera, em abril, maio, junho, julho, agosto ou setembro. Não se sabe, nem se pode saber. Por que, então, o 25 de dezembro?

Em 25 de dezembro realizava-se a festa pagã do Sol invicto, uma festa que os romanos trouxeram de algum lugar do Oriente Médio e espalharam por todo o Império. O dia mais curto do ano no Hemisfério Norte é 21 de dezembro. No dia 22 o sol começa a recuperar seu tempo de brilho. Isso deixava os antigos aliviados, porque significava que o sol, uma das fontes da vida na Terra, não desapareceria. Daí a festa do sol invicto no dia 25. Somente quatro séculos após a morte de Cristo, porém, atribuiu-se seu aniversário a essa data. Até então simplesmente não se comemorava seu nascimento. Por que de repente se resolveu comemorá-lo, atribuindo-lhe uma data?

A resposta encontra-se na disputa entre a Igreja e os arianos, seguidores de Ário. Os arianos, que eram numerosos e depois sofreriam vários massacres, eram cristãos, mas não acreditavam na divindade de Cristo e, conseqüentemente, na doutrina da Santíssima Trindade. Diziam que Jesus fora um homem muito bom criado por Deus para redimir a humanidade com seus ensinamentos e seu martírio, um homem que se aperfeiçoara ao longo da vida, atingindo o auge no sacrifício da crucificação. A igreja postulava (e postula) que Cristo era o próprio Deus encarnado. A Igreja percebeu que, para combater a doutrina do aperfeiçoamento de Cristo, precisava celebrar o nascimento do Menino-Deus. O natal surgiu, assim, como uma arma de luta ideológica, de combate á chamada heresia ariana.

Tudo indica que Jesus também não nasceu em Belém, mas vamos ter de deixar esta questão para outra oportunidade, por falta de espaço para abordá-la agora. De qualquer modo, feliz natal.