As culpas de Marx e Cristo

Muito sangue se derramou em nome dos dois ilustres personagens do drama humano acima citados. Muito se matou em nome de Cristo e depois em nome de Marx. Até que ponto os dois têm culpa, até que ponto eles têm responsabilidade por toda a matança? Os cristãos acham que Marx é responsável pelas maldades do socialismo real, mas Jesus não tem nada a ver com as perversidades da Igreja Católica e de figuras como o reformador Calvino. Os marxistas acham que Jesus é culpado, mas Marx é inocente. Quem está certo? Ambos estão certos e ambos estão errados. Marx e Jesus não são inteiramente responsáveis, mas tanto um como o outro têm a sua parcela de responsabilidade.

Vejamos Marx primeiro. Certamente teria ficado horrorizado com os pavores do leninismo, do stalinismo e do pós-stalinismo. A revolução na periferia do capitalismo, a fórmula stalinista do “socialismo num só país”, a brutalidade do Estado ultra-repressor e a corrida armamentista entre um bloco socialista e um bloco capitalista muito mais rico não faziam parte, certamente, das conceituações de Marx. Onde está, então, sua parcela de responsabilidade? Está no conceito de “ditadura do proletariado”, que Marx preconizou como uma fase de transição para o socialismo, que por sua vez seria também um período transicional, a segunda etapa na transição do capitalismo para o comunismo. O filósofo, economista e sociólogo alemão não percebeu que não pode haver uma ditadura do proletariado. Não pode haver porque o proletariado é uma classe que não tem, em seu dia-a-dia, uma situação de comando. Sua posição nas relações de produção não é uma posição de comando. Somente uma classe em posição de comando pode exercer uma ditadura. Não é o caso do proletariado, que só pode aspirar a algum poder numa situação de democracia quase perfeita, algo que jamais existiu. Numa democracia distante da perfeição, o proletariado pode no máximo ter influência. Numa ditadura, nem isso. Uma “ditadura do proletariado” será necessariamente uma ditadura sobre o proletariado. Nenhuma ditadura pode levar a um socialismo autêntico. Marx não percebeu isso. Por isso tem sua parcela de culpa pelos horrores do chamado socialismo real.

E Jesus? Falou em amor, em perdão, em dar a outra face, em amar o próximo como a si mesmo, em amar até mesmo os inimigos. Como pode ter alguma culpa pela sangrenta história do cristianismo, a religião que mais matou em toda a história? É que a mensagem de Cristo, tal como exposta nos Evangelhos, tem contradições que podem levar a caminhos diversos, alguns deles sangrentos. Quando Cristo diz, por exemplo, “se tua mão direita te ofende, corta-a; se teu olho esquerdo te ofende, arranca-o”, ele abre caminho para uma atitude depuratória que é extremamente perniciosa, fonte potencial de depurações violentas. Outra parte problemática dos Evangelhos é Mateus 12:30, em que Jesus proclama: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha”. Ou seja, quem não é cristão é contra o Cristo, é contra o Deus que se fez homem para salvar a humanidade com seu sofrimento atroz, sofrimento de caráter expiatório. “Como se pode ser contra isso?”, pensam os cristãos. “Como se pode permitir que alguém espalhe, ao invés de ajuntar?” Se Cristo morreu de modo cruel para salvar almas, como se pode permitir que algumas pessoas ajudem o Diabo na tarefa de condenar almas?

É evidente que o cristianismo tem uma base ditatorial muito forte. Se essa base não resulta mais em ditaduras sanguinárias, é porque o cristianismo perdeu o poder político que teve por tanto tempo, sempre com conseqüências funestas. O Ocidente é hoje mais ou menos democrático não por causa do cristianismo, mas apesar dele. Cristo, como Marx, tem suas responsabilidades.