As Vinte e Uma Noites

Trecho do livro

— Aquela garota me olhou de uma maneira estranha — eu disse ao meu amigo Marko, que estava comigo no refeitório.

— Estranha?

— Hostil.

— Hostil?

— Pare de repetir o que eu digo.

— Não dá para entender o que você está querendo dizer.

Era muito natural o espanto do meu amigo Marko. Naquela estação onde estávamos fazia cinco anos – desde que saíramos da universidade – as relações entre homens e mulheres eram amistosas e materialmente frias, cordiais e fisicamente distantes. Jamais se ouvira falar de um só homem da estação que tivesse relações sexuais com mulheres de carne e osso. Todos preferíamos as S-20 e S-21, que tinham muito mais graça e beleza e eram 100% acessíveis. O mesmo se aplicava às mulheres em relação a nós. Não havia naturalistas em nossa estação, entre seus cinco mil habitantes. Não era de admirar, portanto, que Marko não tivesse compreendido a menção que eu fizera a sentimentos tão fortes e explosivos.

— Eu tenho a impressão de que já a vi antes — afirmei após um silêncio de poucos minutos.

— Ela chegou ontem.

— Antes disso.

Ela estava sentada alguns metros a minha direita, com mais duas mulheres. Era branca e tinha cabelo preto, longo, e olhos grandes, também negros. Tinha feições delicadas e um sorriso simpático, que, entretanto, me pareceu assustador.

— Você acha que a viu em outro lugar?

— Em outro lugar, em outro tempo…

Ele olhou para mim com um sorriso zombeteiro. Eu prossegui:

— Ela olhou para mim como se quisesse matar-me.

Marko reagiu com uma gargalhada.

— Você está querendo me gozar — disse ele. — Vamos embora.

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