Atual como nunca
Karl Marx, o patrono maior das esquerdas do século XX, não era o que se chamaria hoje de “politicamente correto”. Marx tinha um grande projeto: unir o proletariado mundial em torno da luta pela superação do capitalismo. “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, proclamou O Manifesto Comunista. Por isso, ele desprezava quaisquer conflitos e confrontos políticos que fugissem ao grande eixo central da luta de classes. Marx não tinha paciência, por exemplo, com os Bálcãs, a região sudeste da Europa, onde ficam, entre outros territórios, Albânia, Sérvia, Croácia, Grécia, Bulgária, Romênia, parte da Turquia. O autor de O Capital chamava os Bálcãs, com seus particularismos religiosos e lingüísticos e suas paixões ancoradas em filiações ancestrais, de “lixo étnico”.
Na terra do “lixo étnico”, não é redundante falar em sérvios da Sérvia, pois há também os sérvios da Bósnia, de Montenegro, da Macedônia. Havia ainda os sérvios da Croácia, mas estes foram expulsos há uns dez anos, num processo de limpeza étnica que não provocou nenhum protesto no Ocidente. Há os albaneses da Albânia, da Macedônia, de Kosovo e da Grécia. Há os gregos da Albânia, os húngaros da Romênia e da Sérvia, os turcos da Bulgária… E tudo isso entrou novamente em evidência após a queda do bloco soviético e o fim da Guerra Fria. Marx ficaria escandalizado ao constatar que as principais lutas políticas do século XXI giram em torno do islamismo, cujo papel político, no seu tempo, havia se tornado marginal. O islamismo político emergiu do lixo da história para o centro do palco. Ou seja, Marx perdeu.
E no entanto Marx ganhou. Muito mais do que um revolucionário empenhado em superar o capitalismo, muito mais do que um visionário preocupado em desenhar os contornos do socialismo e do comunismo, Karl Marx foi um teórico das relações sociais, sobretudo das relações sociais capitalistas. Em sua época o movimento revolucionário era incipiente, e ficar imaginando sociedades futuras, sonhando acordado, era, para ele, um vício dos utopistas, a cujo “socialismo utópico” ele contrapunha o seu “socialismo científico”, fundamentado num estudo da trajetória social da humanidade e das leis essenciais de tal trajetória. O assunto é complexo para o exíguo espaço de um breve artigo, mas, pulando várias páginas, pode-se afirmar que quanto mais o capitalismo se fortaleceu politicamente na última década do século passado, mais ele confirmou teses fundamentais de Marx a seu respeito. “No capitalismo, o poder político pertence, no essencial, à classe capitalista ou burguesia”; “o capitalismo tende fortemente à internacionalização da economia e, conseqüentemente, da política, sob a hegemonia das classes dominantes dos países centrais”; “o modo de produção capitalista leva à hegemonia do capital financeiro sobre outras formas de capital”; “na economia capitalista, os aumentos de produtividade levam muito mais ao desemprego do que à redução das jornadas de trabalho”. As palavras exatas não são de Marx, mas as teses, estas e outras, fazem parte de seu corpo teórico. E são cada vez mais verdadeiras, um retrato preciso pintado com um século e algumas décadas de antecedência.
O grande equívoco de Marx, a meu ver, foi ele, deixando-se levar por aquilo que os ingleses chamam de “wishful thinking”, o pensamento desejoso que vê aquilo que se gostaria de ver, e contrariando seu próprio arsenal de conceitos, confundiu o capitalismo pré-adolescente de seu tempo com um sistema já próximo da decadência. Os períodos históricos são muito mais longos do que gostariam suas vítimas.



Olá! Meu nome é 



Antonio Camelo
em 9 de novembro de 2006
OBS.
SABIA QUE KARL MARX ERA JUDEU?
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