Carta aberta sobre Deus

Prezada Márcia Lourena de França Araújo,

Agradeço-lhe por seu e-mail (publicado integralmente na semana passada). Agradeço-lhe, também, por seu pedido de bênçãos ao “seu” Deus, apelando (por mim) para sua “infinita” misericórdia.

Temo, porém, que seu pedido seja inútil: estou em marcha batida para o Inferno. Afinal, não acredito na divindade de Jesus Cristo nem no dogma da Santíssima Trindade (um mesmo Deus formado por três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo). Não sou particularmente mau nem especialmente bom: acho que estou mais ou menos na média. Mas isso não importa, não é mesmo? Conforme a teologia que você segue, a salvação se dá pela fé, que não tenho (ou que Deus não me deu, uma vez que ele é soberano).

No Inferno, talvez não encontre Adolf Hitler. Quem sabe o que ele pensou e sentiu no último instante? Mas talvez encontre Mahatma (“grande alma”) Gandhi, pregador e praticante da não-violência, que rejeitava a divindade de Cristo, descartava a tese da Santíssima Trindade (como fazem também judeus, muçulmanos e cristãos minoritários, conhecidos como unitaristas) e não tinha nenhuma simpatia pelo “apóstolo” Paulo, apologista da escravidão e da opressão das mulheres.

É claro que Deus pode me conceder, talvez no último minuto, a graça da fé. Esse evento improvável não significaria, contudo, que sua misericórdia é infinita. Para provar a finitude da misericórdia do Deus trinitário, basta fazer duas perguntas: Quantos milhões de pessoas morreram, até hoje, sem crer em Jesus Cristo como Salvador? Quantos milhões de pessoas já faleceram sem ter sequer ouvido falar em Jesus Cristo?

Quanto à minha “sapiência”, admiro sua ironia ferina, embora a considere inadequada para alguém que se propõe a seguir a ultra-exigente ética cristã. Ser cristão também acarreta responsabilidades. Mas talvez tivesse razão o filósofo Nietzsche: o único cristão morreu na cruz.

Chego, por fim, à teoria da “citação fora de contexto”. É uma resposta pronta, um chavão, um clichê dos defensores da Bíblia, sempre que seu livro preferido é flagrado em barbaridades, contradições, erros factuais ou históricos. Ao contrário de quase todos os livros, a Bíblia tem a obrigação de ser perfeita, por ser supostamente a palavra de um autor perfeito. Se muitas partes da Bíblia são incompatíveis com a moderna doutrina dos direitos humanos, como de fato acontece, isto é um problema – um problema grave – para judeus e cristãos, mesmo que outras partes das Escrituras não sejam incompatíveis com os direitos humanos. Os versículos que falam sobre o amor de Deus não apagam as crueldades do Velho e do Novo Testamentos. Não apagam, por exemplo (e é apenas um exemplo), as leis ferozes e atrozes do importantíssimo livro Deuteronômio (“apedrejeis o filho rebelde, o idólatra, o apóstata, a mulher adúltera e seu parceiro” etc.). Não apagam, por exemplo (e é apenas outro exemplo), as barbaridades escritas por Paulo sobre as mulheres. Se o “apóstolo” escreveu o oposto em outros versículos, como alegam seus advogados, isso provaria o quê? Provaria tão somente que ele se contradizia, algo muito estranho para alguém que supostamente escrevia sob inspiração divina.

É isso, cara leitora. No mais, como não acredito na interferência divina neste vale de lágrimas, desejo-lhe boa sorte.

Cordialmente,

Gilson Gondim.