Católicos x Protestantes

Começo recomendando dois livros. Um deles é Perseguições Religiosas, de James A. Haught, publicado pela Ediouro. O outro é Com a Bíblia na Mão, de Fábio Morais, edição do autor. O primeiro pode ser encontrado em várias livrarias; o segundo está à venda no Sebo Cultural (www.sebocultural.com.br) por apenas quatro reais (é um livro de formato pequeno, com poucas páginas). O livro de Haught mostra que disputas como as comentadas neste artigo já provocaram milhões de mortes. Católicos e protestantes já mataram muito. Uns aos outros e também terceiros. Nenhuma religião matou tanto na história da humanidade quanto o cristianismo. As vítimas foram cristãos, muçulmanos, judeus, ateus, agnósticos, deístas, “hereges” e pessoas, principalmente mulheres, acusadas, entre outros feitos, de fazer sexo com Satanás. O livro de Morais, escrito de um ponto de vista católico, discute dez pontos de contenda entre católicos e protestantes: o papa como sucessor de Pedro, a presença real ou simbólica de Jesus na Eucaristia, o batismo das crianças, a confissão dos pecados, o purgatório, a intercessão dos santos, a maternidade espiritual de Maria (o fato de Maria ser, ou não, a mãe espiritual da humanidade), os irmãos de Jesus (se ele os teve ou não, ou seja, se Maria morreu virgem, como querem os católicos, ou se teve um casamento normal com José depois do nascimento de Jesus), as imagens e a regra de fé. Embora tenha um partido no debate, a obra de Morais é muito boa para quem quer simplesmente conhecer as diferenças entre os dois blocos.

As diferenças giram em torno, muitas vezes, de interpretações da Bíblia. É o caso da maternidade espiritual de Maria, que os católicos consideram a grande mãe espiritual da humanidade, baseados no trecho dos evangelhos em que Jesus diz ao “discípulo amado”, que não se sabe exatamente quem era (muitos acreditam que era João): “Eis a tua mãe”. Mel Gibson, católico fundamentalista, enfatiza muito esta cena em seu filme The Passion of the Christ. Para os protestantes, Jesus estava apenas pedindo ao discípulo que tomasse conta de Maria. Para os católicos, ele estava dizendo que Maria é a nossa mãe espiritual. Quem tem razão? Como saber? Interpretação, cada um tem a sua. A variabilidade das interpretações da Bíblia, aliás, é um argumento católico contra os protestantes. A Bíblia, argumentam alguns autores de linha romana, é uma obra obscura, incapaz de falar por si só. Se cada um pode se declarar inspirado pelo Espírito Santo para interpretá-la a seu bel prazer, haverá uma proliferação de igrejas, podendo-se, em tese, chegar ao paroxismo de cada crente ser uma igreja. Os católicos, então, reivindicam para a Igreja Romana o monopólio da interpretação bíblica.

O versículo preferido dos católicos é aquele trecho de Mateus que diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. O que ligares na Terra, ligarei no Céu; o que desligares na Terra, desligarei no Céu”. Pedro teria sido o primeiro papa, que sagrou os primeiros bispos, que elegeram o sucessor de Pedro e assim por diante, numa linhagem direta de Jesus Cristo a João Paulo II. Estaria assim legitimado o monopólio romano da interpretação bíblica. Acontece que a palavra usada por Jesus, segundo Mateus, foi ekklesia, que veio a significar “igreja”, mas significava tão-somente “comunidade”. Portanto, Jesus não teria fundado uma igreja, mas apenas uma comunidade local de crentes. Além disso, não se sabe que palavra Jesus usou, pois ekklesia é um vocábulo grego, e Jesus falava aramaico. O que ele teria dito a este respeito em aramaico? Ninguém sabe. Há indícios, aliás, nos próprios evangelhos, de que Jesus não quis fundar igreja nenhuma, mas somente renovar o judaísmo. “Não vim senão para as ovelhas perdidas da Casa de Israel.” Uma mulher gentia (não-judia) lhe pediu um milagre e ele respondeu que não tiraria o pão de seus filhos (os judeus) para dar aos cachorrinhos (os gentios). A mulher insistiu, dizendo que os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa do dono. E só então recebeu o seu milagre. Os cristãos realmente primitivos eram judeus que iam à sinagoga, descansavam no sábado, praticavam a circuncisão e obedeciam às minuciosas restrições alimentares estabelecidas pelo Pentateuco.

(Veja o artigo Jesus, Paulo, Newton e Maomé, que começa por onde este termina.)