Crash e Brokeback Mountain
Filmes ganhadores do Oscar de melhor filme se tornam fetiches. Para muita gente, eles são ótimos por definição, porque ganharam o Oscar. Para outros, o Oscar é o prêmio de uma indústria conservadora, cheia de tiques e preconceitos. Por isso, torcem o nariz para as obras premiadas. Para mim, o Oscar não é nem magia branca nem magia negra. Não dá uma aura de santidade a um filme nem o torna um demônio. É apenas um prêmio concedido por pessoas que podem acertar e errar. Além do mais, nem sempre é fácil falar em acertos e erros quando se trata de julgamentos subjetivos. Eu posso não achar bom aquilo que você acha ótimo. Gosto muito de alguns filmes oscarizados e detesto outros. O filme que mais me emocionou em todos os tempos foi “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), vencedor em 1975. Já de “Amadeus”, do mesmo diretor (Milos Forman) e também ganhador do Oscar, eu não gostei, por ser um filme baseado numa falsificação histórica, a tese de que Mozart foi envenenado por Salieri, e por ser a obra um exercício de idolatria, mistificação e mitificação em torno da figura de Mozart. Gostei menos ainda de “Gladiador”, um filme de heróis e vilões em que todos os personagens são caricaturais. A “Senhor dos Anéis” sequer assisti, porque não gosto do gênero fantasia. Gostei de “Menina de Ouro”, apesar de não apreciar as interpretações cara-dura de Clint Eastwood e Morgan Freeman, plenamente compensadas pelo show de Hillary Swank, merecidamente premiada. E assim por diante.
Este ano, as premiações de maior prestígio foram para “Crash” e “Brokeback Mountain”. O primeiro, melhor filme; o segundo, melhor diretor. “Crash” ganhou ainda os prêmios de melhor roteiro original e edição, enquanto seu concorrente levou as premiações de melhor roteiro adaptado e trilha sonora. Em primeiro lugar, discute-se se os prêmios de melhor filme e melhor diretor deveriam necessariamente ir para a mesma obra. A meu ver, não necessariamente. Considero a tese da convergência necessária uma bobagem. A direção – habitualmente mistificada, mitificada e idolatrada – é apenas um aspecto da feitura de um filme ou peça, embora seja um dos aspectos mais importantes. Às vezes um roteiro ou texto muito bom se sustenta com um diretor que apenas não atrapalhe, sobretudo se o elenco for de primeira. Outras vezes é o diretor quem, agindo sobre o roteiro e o elenco, transforma o filme ou peça numa boa obra, que de outro modo seria somente razoável. O primeiro filme pode ser melhor do que o segundo, que no entanto tem melhor direção. Este quadro constitui apenas uma das várias possibilidades de divergência entre melhor filme e melhor direção. Os dois prêmios, mesmo assim, quase sempre andam juntos nos festivais e em ocasiões como a festa do Oscar.
“Crash” e “Brokeback Mountain” têm ambos ótimos roteiros. O segundo é uma história clássica de amor trágico, em versão homossexual. Amor trágico no sentido dramatúrgico do termo: uma história de amor condenada desde o início por forças maiores do que ela. “Romeu e Julieta” é a encarnação mais conhecida desse modelo. O diretor taiwanês Ang Lee andou o tempo todo no fio da navalha, na corda bamba, evitando sempre, habilmente, o melodrama barato e a comédia involuntária, que poderiam ter-se infiltrado no filme por meio das interpretações ou de detalhes. Creio que mereceu o prêmio de melhor diretor. “Crash” é um filme-painel, uma espécie de ficção sociológica, em que o protagonista não é um indivíduo, mas um tema: os estereótipos e as relações raciais e étnicas nos Estados Unidos. Com um ritmo bem mais envolvente do que o de “Brokeback Mountain” (pela própria temática), “Crash” apresenta um entrelaçamento fascinante de histórias e personagens em que o opressor de hoje é o oprimido de amanhã e vice-versa. Só não gostei de uma cena que pode ter uma interpretação sobrenatural equivocada, mas que não chega a estragar o filme. O prêmio de melhor filme ficou em boas mãos.



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