Crentes x Gays*
* Este artigo foi publicado originalmente no Jornal da Paraíba, no fim de semana em que houve a Parada Gay de João Pessoa-PB.
Fui sondado esta semana pela produção de um programa de televisão para participar de um debate sobre a Parada Gay de João Pessoa, a realizar-se neste fim de semana (não sei se hoje ou amanhã). Perguntei se eles queriam uma posição analítica ou uma posição polêmica do tipo totalmente a favor ou frontalmente contra. Eles queriam a segunda. Optei, então, por não participar, porque não sou a favor nem contra as paradas gays. Por um lado, acho que os gays têm o direito de fazer quantas paradas quiserem. Por outro, acho as paradas gays eventos de mau gosto, em que o que se vê não é “alegria”, como a mídia apregoa, mas deboche. Deboche e muita caricatura, muito estereótipo. O que nós vemos ali não são pessoas, mas tipos, personagens rasos, definidos por uns poucos traços exagerados. Creio, inclusive, que as paradas contribuem para reforçar o preconceito, não para combatê-lo. As paradas mostram os gays como os conservadores adoram vê-los e apontá-los: debochados, bichas loucas, desvairadas.
Não tenho, também, ilusões sobre a suposta pureza das chamadas minorias. As minorias não são apenas discriminadas; também discriminam, e muito. Quando o PT era só uma pequena seita, nos anos 80, dominava vários departamentos universitários Brasil afora. E não deixava entrar quem não rezava pela sua cartilha. Até mesmo determinadas maneiras de vestir-se eram motivo para discriminação. Quem não seguia o modelito bicho grilo militante (ou militante bicho grilo) era excluído. Barbichinha, camiseta, chinelo de dedo eram requisitos fundamentais para se entrar em alguns mestrados e doutorados. Muitas pessoas foram perseguidas e prejudicadas em nome de uma pureza que agora se vê quão pura era.
Os próprios gays também discriminam, e muito. Quem conhece bem o meio artístico-cultural sabe o que sofrem (em festivais, por exemplo) os criadores e artistas que não se ajoelham para as bíblias gays. Existem máfias gays poderosas na imprensa e em profissões como a arquitetura. Portanto, devagar com o andor que o santo é de barro: a discriminação tem mão dupla. Os crentes têm razão pelo menos num ponto: grande parte da mídia glamouriza os homossexuais, especialmente as lésbicas. As lésbicas das novelas da Globo, por exemplo, não têm nada a ver com as que eu conheço no mundo aqui fora. As lésbicas globais são muito mais bonitinhas, muito mais delicadas, muito mais femininas.
Por outro lado, não posso concordar com nenhum tipo de censura, e os crentes são bem chegados a uma censura. Se pudessem, proibiriam a prática e a veiculação de tudo aquilo que não se enquadra nos padrões agropastoris de uns livros (conhecidos coletivamente como Bíblia) escritos por uns brucutus recém-saídos da Idade da Pedra. Não me importa nem um pouco se o Levítico (um livro da Bíblia) condena a homossexualidade. O Levítico também me autoriza a vender minhas filhas como escravas (quer comprar?). O Levítico me manda queimar bois para a glória de Deus (os vizinhos iam reclamar da fumaça e do cheiro de queimado!). A Bíblia me manda apedrejar até a morte um monte de gente, inclusive meu filho rebelde (quer participar do apedrejamento?). A Bíblia diz que um castrado não pode participar da Congregação do Senhor, que um cego não pode aproximar-se do altar e assim por diante. A Bíblia é campeã mundial de absurdos. Paulo proibiu a mulher de falar na Igreja, proibiu a mulher de ensinar, proibiu a mulher de entrar na Igreja com a cabeça descoberta, etc. Tudo isso supostamente em nome de Deus. Será que Paulo era gay? Afinal, ele disse que seria melhor que o homem se abstivesse de tocar em mulher, abstenção que ele proclamou seguir. Uma coisa é certa: Paulo não gostava nem um pouco das “rachas” ou “rachadas”, como muitos gays brasileiros costumam chamar as mulheres, mostrando como também são preconceituosos. Crentes e gays levam multidões às ruas do Brasil. Mas não contem comigo!



Olá! Meu nome é 



Joao Candido Tessar
em 13 de julho de 2007
Gondim,
O teu texto é muito bom. Entretanto, deixa-me fazer uma crítica. As paradas gay têm dois objetivos, creio então, o primeiro voce acertou: DEBOCHAR. Debochar tem “multiplos” significaos, e claro, fora o moralismo com que é tratado no teu texto, serve também para indicar ZOMBARIA. Vamos por este caminho, porque assim nos livramos da idéia de moral. “Zombar dos que zombam da gente”. Ou seja, a parada ao promover a visibilidade gay, promove algumas questões que, em tese, deveriam ser debatidas nos botecos, nos restaurantes, nos lares, etc. etc. Acho que voce lembra do escandaloso doutor Freud quando publicou que crianças (conhecidas por anjinhos = sem sexo) também experimentavam prazer. Não falo aqui, nem mesmo Freud, de prazer orgástico, certo? Ao promover sua visibilidade por meio da zombaria, da extravagancia, do colorido, da “caricatura” eles, gays, promovem sua própria alegria; alegria de poder ao menos um dia sair em multidões e sentirem-se mais livres. Quem ousaria apedrejar um gay numa parada? No meio da turba?
Por mais que voce queira distanciar-se daquilo que escreve, às vezes, à moda dos positivistas, acaba caindo na cilada do próprio discurso e acaba representando uma parte pelo todo criando um universo sem diversificação. Se voce se refere ao multiplo deveria aos menos o fazer sem projeções do lugar-comum. Voce diz que nas paradas gays não existem pessoas, mas “personagens rasos (sic)” e não explica ao teu leitor o que entende por isto. Gera certo moralismo de tua parte. Afinal, o que é um personagem elevado? Parece que voce encara os gays em suas manifestações como seres cuja natureza é metálica. Concordo com voce que nas paradas existem muitos exageros, mas isto, às vezes, é muito necessário. Infelizmente, quando o debate na mídia é levantado os gays saem sempre em desvantagem, por quê? Porque no mais das vezes não têm muito conhecimento sobre aquilo que se está debatendo e são bem pouco articulados. Recordo-me de um debate que o programa “Alex Filho” fez em que os religiosos estavam levando vantagem dada a desorientação em que os gays estavam imersos. A citação do Levítico vem sempre a tona e os gays diante disto para incapazes de contra-argumentar de maneira brilhante. Bem, não é caso para um debate religioso por aqui.
Ao ler teu texto, infelizmente, tive uma péssima impressão sobre o que vc, realmente, pensa sobre os gays. Parece que por ser gay indivíduo deva dar um grande exemplo de honestidade e desprendimento das coisas da vida. Existem muitos gays mafiosos, mas não por que são gays, mas porque participam do mundo com seus multiplos interesses. Os gays também são pre-conceituosos, mas nem sempre o pre-conceito é uma coisa ruim. Lembra? Pre-conceito também pode ser lido como aquilo que se deseja selecionar para o bem. Naturalmente, o gay não é uma máquina de “boas aventuranças”. O que a maioria dos gays luta é pelo direito de expressar-se livremente, de ter seus direitos garantidos, de serem encarados como pessoas e não como “personagens rasos”. O universo é plural como voce acredita e eu também. E dentro desta pluralidade os gays constroem seu próprio universo. E, claro, o deboche começa com a classe heterossexual… Acho que o que faltou mais em teu texto foi um olhar mais de alteridade. Sei que voce é um homem respeitado, respeitamos o que escreves, mas jamais poderia concordar com algumas coisas que nos atinge diretamente.
Os “crentes” (católicos, evangélicos-protestantes, reformados, luteranos, seja lá a quem vc se refere ou a todos ao mesmo tempo) ja matou muita gente. Só lembrar dos tribunais que eles ergueram (Inquisição e Santo Oficio). Só lembrar da chacina que o Moises mandou realizar ao voltar com a Tábua dos dez mandamentos e ver aquele povo todo adorando um bezerro de ouro, aliás,prática aprendida no Egito no tempo do cativeiro… Este debate entre “crentes” e gays não nos leva a nada enquanto não tivermos uma posição do Estado Laico, efetivamente. Temos de sair do mundo ideal em que todos nós somos iguais perante Deus e as leis. Sabemos que isto não é verdade e que muito, provavelmente, um dia isto virá a ocorrer. Não importa o que somos em nossas sexualidades, como representamo-las… O importante mesmo é que asseguremos o direito de todos os individuos a se manifestarem sem prejuizo do outro a realizações de suas vontades, de seus desejos.
João.
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Benvindo Salvador
em 23 de janeiro de 2008
Mais do mesmo
Numa esfera tão intrigante quanto é a da nossa socidade contemporânea me causa muita estraenza ocorrerem debates ou pseudo-debates sobre a velha discórdia que afasta os religiosos dos homosexuais, para tanto gostaria de poder lembrar aos companheiro que endossaram ainda mais esse cabo de guerra, que a resposta para suas provocativas e indagções está na ideía do outro, de aceitação do outro. Preciso referir que não adianta que esse tipo de discursão ainda seja levantado, não se encontra mais espaço em nossa sociedade para paradoxo já tão ultrapassados, sejamos razoáveis e sigamos àquilo que acreditamos, medir força sobre questões de certo e verdeda é o mesmo que construir uma obra no charco, portanto me privo que endossar este caldo e afirmo aos companheiros que me motivaram a escrever sobre isso. É PRECISO NOS ACEITARMOS PARA ACEITARMOS OS OUTROS.
Cordialmente, Benvindo Salvador
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