De Alvoradas e Crepúsculos

Trecho do livro

I

A tristeza é o que há de comum
entre o candidato derrotado,
o amante desiludido,
o capitalista falido e o cidadão patriota
do país ocupado.

II

É preciso que nunca se veja
entre a quente poesia
e a fria ciência
um fosso,
um abismo,
uma grande distância.
Se a ciência demonstra o que é o mundo, a poesia nos diz
o que o mundo nos faz.

III

Enfiar a cabeça no solo
é deitá-la no colo da inconsciência. Ó vidinhas arrumadas,
eu choro sem lágrimas a dor sem igual (exibida em tantas calçadas)
de vossa infinita paciência.

* * *

Ao longo da vida
(ao avançar para a morte)
encontrei mais de uma cidadela caída,
que já teve o sul
e também teve o norte
e hoje mais nada,
é o fim da estrada.
O seu passo indeciso não conduz ao azar nem leva à sorte;
não leva ao bem
nem conduz ao mal;
não leva a nada.
É o fim da escada,
derradeiro degrau.

* * *

Não são deuses os artistas,
cientistas,
pensadores;
nem mesmo gênios eles são.

Os tais gênios só existem nas mil e uma noites (e as tais noites nunca existirão).

Não são bons (nem maus) pelo simples fato de serem criadores,
de criarem coisas belas e até mesmo comoventes.
Muitos deles não passam de queridos parentes
do carcereiro da mais escura prisão.

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