Debatendo O Código Da Vinci*

* Artigo publicado originalmente em O Norte, em 30 de maio de 2006

“Gilson, você já assistiu O Código Da Vinci?”, perguntou-me Jailma, produtora do Programa Alex Filho. “Ainda não”, respondi. “Pois corra para assisti-lo. Nós vamos fazer um debate sobre o filme e gostaríamos de contar com a sua presença.”

“Claro, com o maior prazer. Quem serão os outros debatedores?”.

“O arcebispo Dom Aldo Pagotto, o Pastor Estevam Fernandes e o deputado Ruy Carneiro, que fez um pronunciamento contra o filme na Assembléia Legislativa.”

Eu estava ansioso para reencontrar o Pastor Estevam depois do debate que traváramos no Programa Feminíssima, da TV Tambaú. Estava curioso para saber se desta vez o pastor traria uma resposta convincente para o fato, apontado por mim no outro debate, de que há duas versões opostas para a morte de Judas no Novo Testamento, uma em Mateus, a outra em Atos. Na primeira, Judas trai Jesus por trinta moedas, arrepende-se de imediato, corre ao templo para devolver o dinheiro, os sacerdotes não aceitam a devolução, Judas joga no chão o saco com as moedas e vai correndo enforcar-se. Na segunda, Judas trai Jesus e recebe o dinheiro, mas não se arrepende, não tenta devolver as moedas, não joga o dinheiro no chão e compra com ele um terreno, onde viria depois a morrer de uma queda, em que sua barriga se abre e suas vísceras se derramam. Infelizmente, eu continuo esperando pela resposta do pastor, porque ele não compareceu ao programa.

Dom Pagotto também não foi, privando-me da honra de debater com um arcebispo da tradicionalíssima Igreja Católica Apostólica Romana, que tem uma história marcada por muito sangue e muitas trapaças, como a célebre “Doação de Constantino”, um documento – forjado por um papa – pelo qual o imperador Constantino, aquele que estatizou o cristianismo, transformando-o em religião oficial e majoritária, doava à Santa Madre Igreja toda a parte ocidental do Império Romano. A maior parte da fortuna da Igreja provém desta fraude comprovada conhecida como “Doação de Constantino”.

O Arcebispo não foi, mas enviou um representante, um padre muito inteligente e culto chamado Eduardo Bueno. Eu, o padre e o deputado Ruy Carneiro travamos um debate muito interessante, ao mesmo tempo acalorado e civilizado.

Ruy Carneiro perguntou-me onde está dito na Bíblia oficial que Maria Madalena foi esposa de Jesus e teve uma filha com ele, como diz o filme. Perguntei-lhe onde está escrito na Bíblia oficial que Maria Madalena era uma prostituta, como quase todas as Paixões de Cristo mostram e quase todo mundo pensa. O deputado pediu a ajuda do padre, que confirmou: não está escrito em lugar nenhum que Maria Madalena foi uma prostituta. Acrescentei então a informação de que foi um papa qualquer, no ano de 591, que inventou e instituiu essa história de que Madalena era uma profissional do sexo. Será que é o filme que difama Jesus ou são as igrejas e as Paixões de Cristo que têm sistematicamente difamado Maria Madalena, que é séria candidata ao posto de mulher mais difamada da história da humanidade?

Existem dezenas de evangelhos (e outros tantos se perderam), além dos quatro que a Igreja e o Império Romano escolheram. Além disso, como exemplifiquei no debate, há contradições gravíssimas entre os quatro evangelhos oficiais. Como saber se Maria Madalena foi uma prostituta ou a esposa de Jesus ou as duas coisas? Não há como saber sequer se eles existiram. Não existem verdades teológicas ou teologais. Existem apenas crenças. Crenças totalmente arbitrárias. O resto é conversa para engabelar quem aceita goela abaixo as “verdades” oficiais.