Deus em questão

Antes de entrar no assunto de hoje, quero fazer algumas considerações sobre o estoicismo, dando seqüência aos dois artigos anteriores sobre filosofia grega. O estoicismo pode ser resumido da seguinte maneira, como fez o francês Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna: para o estoicismo, a felicidade consiste em vencer a si mesmo e não ao destino, em mudar seus desejos e não a ordem do mundo. Alguns estóicos gostavam de usar a imagem da roda da fortuna: a roda da fortuna gira, gira e pode parar a qualquer momento, em qualquer ponto. Se ela parou num ponto que lhe é favorável, você aceita, satisfeito e feliz. Se parou num ponto que lhe é desfavorável, você tem que aceitar também. Não devemos bendizer a roda da fortuna quando ela nos favorece e maldizê-la quando faz o oposto.

Os estóicos são freqüentemente acusados de conformismo, mas é de inspiração estóica aquela célebre oração que pede aos deuses força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma situação da outra. Ter consciência da existência e dos fundamentos do pensamento estóico nos pode ser de alguma valia em diversos momentos, fases e situações. Ouçamos, portanto, a voz do estoicismo.

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Treze mineiros ficaram presos numa mina no estado norte-americano da Virgínia Ocidental. O poder público se mobilizou para tentar resgatá-los com vida, a opinião pública americana prestou grande atenção e os parentes e amigos se uniram para orar pela vida dos treze. De repente chega a notícia de que todos haviam sido resgatados com vida. “Deus seja louvado”, bradaram parentes e amigos. “Deus não podia deixar de ouvir nossas preces, Deus é bom, Deus é amor, etc.” A notícia, que na verdade era um rumor, notícia não confirmada, acabou se revelando um boato, notícia falsa. Amarga desilusão. Dos treze, doze estavam mortos e um em estado crítico. Se Deus recebeu o mérito pela situação anterior, era de se esperar que recebesse o demérito pela cruel realidade da morte dos mineiros, acrescida do atroz sofrimento provocado pela brutal reversão de expectativas. Mas não. Nada. Os parentes e amigos se voltaram contra as autoridades. Estão vivos? Deus seja louvado! Estão mortos? Pau nas autoridades. Não é interessante? Estamos diante da falácia da seleção de observações: o que é bom atribui-se a Deus; para o que é ruim encontra-se outro culpado, murmurando-se, no máximo, um rápido “os desígnios de Deus são misteriosos”.

Atribuem-se a Deus alguns salvamentos improváveis num desastre de grandes proporções, como o tsunami do final de 2004. Mas não se atribui a ele a culpa pelas 220 mil mortes e por toda a destruição. Esquece-se que coisas improváveis muitas vezes acontecem, porque não são impossíveis. Olvida-se que, pela lei das probabilidades, é certo que numa grande catástrofe alguns sortudos escaparão por um triz. O importante é atribuir a Deus as coisas boas e isentá-lo da prática de malefícios. Numa das ilhas indonésias mais atingidas pelo tsunami, cristãos agradeceram a Deus por terem escapado. Menos de três meses depois, milhares deles morreram num terremoto. Deus pregou-lhes uma peça. Louvado seja Deus!