É possível provar a inexistência de Deus?

Ausência de provas não é prova de ausência. Nunca se capturou uma fada, um gnomo, um duende. Mas isto não significa que eles não possam existir. Se não na Terra, pelo menos em outros planetas. Nunca se achou um fóssil de um unicórnio, mas se pode encontrar um (fóssil de unicórnio) a qualquer momento. Unicórnios podem existir em outros planetas. Unicórnios podem facilmente vir a ser produzidos por engenharia genética. Dragões são um caso mais complicado. Um animal que solta fogo pela boca ou pelas ventas sem se queimar gravemente não parece compatível com a vida tal como a conhecemos. Mas quem sabe que tipos de vida pode haver em outros planetas?

A inexistência de um Deus indefinido, sem atributos específicos, não pode ser provada. Mas este não é o caso do Deus cristão: ele tem atributos específicos; a ele são atribuídas características específicas. E não é necessário conhecer o universo inteiro para fazer certas afirmações categóricas sobre determinados objetos com atributos bem definidos. Posso afirmar com absoluta certeza que não existem nem podem existir, em lugar nenhum, triângulos com mais ou menos do que três lados. Posso afirmar com toda a segurança que não existe nem pode existir um círculo quadrado.

Isso nos traz ao primeiro dos atributos do Deus cristão que são impossíveis, por autocontraditórios ou contraditórios com outros atributos do mesmo Deus:

  1. Deus não pode ser onipotente. Ele não pode, por exemplo, criar um círculo quadrado ou uma esfera cúbica, pois um cubo tem oito vértices e uma esfera não tem nenhum. Ele não pode criar, no mesmo universo, o Recipiente Invulnerável e o Ácido Universal, pois este corrói todos os recipientes e aquele resiste a todas as substâncias. A existência de um implica necessariamente na inexistência do outro. Portanto, o primeiro atributo do Deus cristão, a onipotência, não se sustenta, o que já torna o Deus cristão impossível logo de saída. Mas vamos adiante.
  2. O segundo atributo do Deus cristão, a onisciência, é incompatível com o primeiro, a onipotência. Se Deus sabe exatamente o que vai acontecer em cada recanto da Terra em 21 de dezembro de 2012, ele não pode mais alterar tais acontecimentos, pois, se o fizesse, sua pré-ciência estaria errada.
  3. Cito Chad Docterman (www.ateus.net): “O que Deus fez durante aquela eternidade anterior à criação de todas as coisas? Se Deus era tudo que existia naquele tempo, o que perturbou o equilíbrio eterno e o induziu à criação? Estava entediado? Estava solitário? Deus supostamente é perfeito, Se algo é perfeito, este algo é completo – não precisa de nenhuma outra coisa. Nós, humanos, nos engajamos em atividades porque estamos buscando uma perfeição fugidia, pois há um desequilíbrio causado pela diferença entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus é perfeito, então não pode haver desequilíbrio. Não há nada de que ele necessite, nada que deseje, nada que deva ou irá fazer. Um Deus que é perfeito não faz nada senão existir. Um criador perfeito é impossível”. Ou seja, perfeição e criação são incompatíveis.
  4. Se Deus criou Adão e Eva (ou os primeiros humanos) com livre-arbítrio, ele não sabia que eles iriam desobedecer-lhe, o que elimina sua onisciência. Se ele sabia que eles iam desobedecer-lhe, é porque eles não tinham livre-arbítrio. Neste caso, Deus criou homens e mulheres como máquinas de pecar, e o ser humano é inocente de seus pecados, não tendo necessidade de nenhuma expiação por meio de Cristo e não merecendo condenação nenhuma em outra vida ou em outro plano (carma, purgatório, inferno, aniquilação: as quatro possibilidades levantadas por religiões que se dizem cristãs).
  5. Deixemos de lado, por um momento, os erros factuais e históricos, as lacunas e as contradições da Bíblia. Mesmo fazendo isso, temos de admitir que a Bíblia é uma coleção de livros que têm dado margem às mais variadas e díspares interpretações. Um ser perfeito não teria se expressado de modo mais claro, de modo a evitar tanta discórdia e ter feito valer sua vontade, seja ela qual for? Não teria inspirado melhor seus escribas e representantes terrenos?
  6. Volto a Chad Docterman (www.ateus.net): “Um Deus que sabe tudo não pode ter emoções. A Bíblia diz que Deus experimenta todas as emoções humanas, incluindo ódio, tristeza e felicidade. Nós, humanos, experimentamos emoções como resultado de um novo conhecimento. Um homem que desconhece a infidelidade de sua esposa experimentará as emoções de ódio e tristeza apenas após descobrir o que anteriormente, para ele, estava oculto. Em contraste, o Deus onisciente não é ignorante em relação a nada. Nada é oculto para ele, nada novo pode lhe ser revelado. Assim, não há como adquirir um conhecimento ao qual possa reagir emocionalmente. Nós, humanos, experimentamos ódio e frustração quando algo está errado e somos impotentes para consertá-lo. O Deus perfeito e onipotente pode, entretanto, consertar qualquer coisa. Humanos sentem desejo daquilo que lhes falta. Para o Deus perfeito nada falta. Um Deus onisciente, onipotente e perfeito que experimenta emoções é impossível”.

Há outros tantos argumentos, mas vou parar por aqui. Estes seis argumentos parecem-me suficientes para provar que o Deus cristão é impossível. Podem existir unicórnios, fadas, gnomos e duendes, em algum lugar do universo. O Deus cristão, porém, não pode existir em parte alguma. É tão impossível quanto uma esfera cúbica ou um círculo quadrado. Desafio os caros amigos a contestar os seis argumentos.

P. S.: Sou agnóstico em relação à idéia de Deus de um modo geral. Entretanto, sou total, completa, inteira e absolutamente ateu em relação ao Deus hebraico-cristão-muçulmano. A este não dou sequer o benefício da dúvida, como não dou o benefício da dúvida a um quadrado circular.