Hipocrisia

A hipocrisia é muito importante para a vida em sociedade. O que seria das relações humanas se não fosse ela? O que seria das relações humanas se todos fossem totalmente sinceros, se não houvesse pelo menos o verniz da hipocrisia, a homenagem que o vício presta à virtude, como bem definiu um pensador? O que seria da sociedade se o ego e o superego freudianos não administrassem as paixões desenfreadas do id? O superego em nome da moral, das proibições, das interdições, dos tabus. O ego em nome das conveniências, dos cálculos entre fins e meios, do princípio da realidade sobrepujando o princípio do prazer.

Mal necessário, a hipocrisia não deixa de revoltar. Principalmente quando excede certos limites. Na política internacional, a hipocrisia é ainda mais acentuada. Nos tempos da Guerra Fria, a imprensa conservadora dividia o mundo em Mundo Livre e Cortina de Ferro. Só que o “Mundo Livre” era formado majoritariamente por ditaduras ferozes e extremamente corruptas bancadas pelos Estados Unidos, ditaduras que foram abandonadas à própria sorte tão logo a ameaça vermelha deixou de existir. Isto não significa, porém, que a política internacional deixou de ser hipócrita. O respeito às resoluções da ONU, por exemplo, é cobrado seletivamente. O Iraque de Saddam Hussein era acusado de desrespeitar resoluções da ONU. Israel há décadas desrespeita resoluções da ONU para que desocupe territórios palestinos e obtém o silêncio como resposta e “reação” do sistema internacional de poder.

A questão nuclear é outro território em que a hipocrisia reina soberana. Todo mundo está careca de saber que Israel tem armas nucleares em grande quantidade. Agora há pouco, o próprio primeiro-ministro israelense admitiu, de forma enviesada, tal realidade. Mas fica tudo por isso mesmo, ninguém se escandaliza, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU, não fala em fazer inspeções em Israel, Bush não chama Israel de Estado delinqüente e a vida segue em frente em sua “normalidade”. Já a possível futura bomba atômica do Irã causa furor, reações da AIEA, pressões e adjetivos de todos os lados.

Se Israel tem o direito de ter a bomba atômica, por que o Irã não tem o mesmo direito? Se seus inimigos são Estados poderosos, agressivos e belicosos como Israel e os Estados Unidos, você precisa da bomba atômica até mesmo para não ser invadido ao menor pretexto, como aconteceu com o Iraque de Sadddam Hussein.

O mundo islâmico precisa de uma bomba atômica. Já existem as do Paquistão, mas estas estão voltadas para o arquiinimigo dos paquistaneses, a Índia. Torçamos, portanto, pela bomba atômica do Irã. É uma questão de equilíbrio.