Ilusões

Se a religião é o ópio do povo, o ópio é a religião das pseudovanguardas.

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Tudo aquilo que produz um estado de inconsciência ou inatividade, que por sua vez contribui para a perpetuação de um determinado estado de coisas, é essencial e objetivamente conservador. Por este motivo, Marx definiu a religião como o ópio do povo. Ao criar ilusões sobre a condição humana, ao mostrar o mundo como ele não é, ela produziria uma atitude de acomodação a uma ordem opressiva. Quer se concorde ou não com essa tese, é uma questão de justiça reconhecer e admirar a rara beleza de sua expressão por Karl Marx:

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, a alma de uma realidade sem alma. É o ópio do povo.

Abolir a religião, como a felicidade ilusória dos homens, é procurar sua felicidade real. O clamor para que abandonem as ilusões sobre sua condição é uma convocação para que abandonem uma condição que precisa de ilusões”.

Os adeptos da Teologia da Libertação têm se esforçado para que o cristianismo deixe de ser enquadrável na célebre definição de Marx. Se têm sido, ou podem ser, bem sucedidos em tal empreendimento é uma questão que não será discutida aqui. O que nos interessa neste artigo é algo que para alguns pode parecer um antônimo da religião, mas que é apenas o outro lado (que neste caso não significa “lado oposto”) da concepção que Marx expressou com tanto brilho.

Se a religião é, ou foi, o ópio do povo, o ópio é a religião das pseudovanguardas. A maconha é um dogma: aquele que se retirar de uma sala por causa de sua presença será visto como um infiel (digno de pena, na melhor das hipóteses). Todo dogma é um bloqueio à razão, ao raciocínio e à consciência crítica. Em outras palavras, todo dogma é conservador, pois nos torna escravos de hábitos aceitos passivamente, sem reflexão. Por esta razão a maconha é conservadora. Mas não somente – nem sobretudo – por este motivo.

Ela se ajusta como uma luva à tese de Marx: ao alterar quimicamente a percepção humana, apresenta o mundo como ele não é, criando ilusões e estimulando atitudes de acomodação. Embelezar imaginariamente uma realidade é como maquiar um rosto deformado que precisa de uma cirurgia: o cirurgião tem que vê-lo como realmente é, na plenitude de sua deformidade, para poder agir sobre ele e transformá-lo.

É claro que sempre se pode argumentar que a realidade é tão cruel ou tão entediante, e que as possibilidades de alterá-la são tão pequenas, que o melhor a fazer é se adaptar a ela, por meio de impressões ilusórias. Quem quiser se render, que se renda. Que seja conservador quem desejar sê-lo. É um direito de cada indivíduo. Entregue-se a ilusões a respeito do mundo, se não pode viver sem elas. Iluda-se a seu próprio respeito, se não consegue viver de outra maneira. Mas não tente colar em outras testas rótulos que caberiam melhor em sua própria cabeça.