Implicações teológicas das rapineiras gigantes, ou a superioridade do ateísmo sobre a teologia

Você  já ouviu falar nas rapineiras gigantes? Provavelmente não. Eu também jamais ouvira falar nelas até comprar, há poucos anos, o livro ilustrado Evolução da Vida, da coleção Ciência e Natureza, da Time-Life. E no entanto as rapineiras gigantes dominaram grande parte deste planeta durante milhões e milhões de anos.

Eram aves não-voadoras, sem asas, com mais de dois metros de altura e cabeças quase tão grandes quanto a cabeça de um cavalo atual. Seus bicos e garras terríveis causaram imenso sofrimento sobre a Terra. Contudo, você nunca ouviu falar nelas.

As rapineiras gigantes surgiram evolutivamente para ocupar o espaço vazio deixado no topo da cadeia alimentar com a extinção catastrófica dos grandes dinossauros, destruídos pelos efeitos do impacto de um asteróide no que é hoje a Península de Yucatán, no México, há cerca de 65 milhões de anos.

Cerca de oito milhões de anos depois do fim dos dinossauros de grande porte, a Dyatrima já reinava na América do Norte, naquele tempo separada da América do Sul. Seu reinado foi longo: cerca de 17 milhões de anos. Até o surgimento daquele que viria a ser seu grande carrasco: o tigre-dentes-de-sabre. Predador mais eficiente, ganhou a competição com a Dyatrima e ainda a transformou em caça, até sua extinção.

Na América do Sul, tivemos o Phororhacos, um tanto menor que o Dyatrima. Só apareceu por volta de 26 milhões de anos atrás, quando a Dyatrima já desaparecera da América do Norte fazia 14 milhões de anos. Porém, o reinado do Phororhacos foi mais longo: 19 milhões de anos, até sete milhões de anos atrás, quando a versão sul-americana do tigre-dentes-de-sabre, um animal marsupial (cuja fêmea carregava os filhotes numa bolsa, como as fêmeas de canguru), emergiu do processo evolutivo.

Para quem acredita que Deus criou o mundo e interfere nele, tudo tem que ter um significado teológico. Tudo aquilo que existe, existiu ou existirá  tem necessariamente que ter implicações teológicas. Qual o significado teológico das rapineiras gigantes? Qual o significado teológico do sofrimento atroz que elas causaram durante tantos milhões de anos? E qual o significado teológico do sofrimento terrível por que elas passaram quando estavam acuadas por seus inimigos mamíferos emergentes? Do ponto de vista evolutivo, é fácil explicar como e por que elas surgiram, como e por que desapareceram. Mas e do ponto de vista teológico? Por que as rapineiras gigantes existiram? Por que duraram e dominaram por tanto tempo? Por que deixaram de existir? Do ponto de vista teológico, só há perguntas. Não há respostas. Varre-se tudo para debaixo do tapete chamado “mistérios divinos”. E toca-se a vida em frente como se se tivesse uma visão de mundo bem fundamentada, quando não se a tem.

Este é um exemplo, dentre muitos, de como os ateus explicam o mundo muito melhor do que os crentes.