Jesus, Paulo, Newton e Maomé

Os primeiros cristãos – os cristãos realmente primitivos – eram judeus que iam à sinagoga, descansavam no sábado, praticavam a circuncisão e obedeciam às minuciosas restrições alimentares estabelecidas na Torah (Torá), o Pentateuco, ou seja, os cinco primeiros livros do Velho Testamento cristão (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). O cristianismo como o conhecemos hoje não foi fundado por Jesus, mas por Paulo, que lançou a idéia da salvação pela fé em Cristo, e não mais pela observância da lei judaica, conhecida como lei mosaica, por ter sido supostamente estabelecida por Moisés. Livres da circuncisão e dos tabus alimentares, os gentios (não-judeus) puderam converter-se ao cristianismo. Paulo era um homem de visão: percebeu que o futuro da nova religião não estava entre os judeus, mas entre os gentios. Não importava se Jesus tinha dito: Não vim senão para as ovelhas perdidas da Casa de Israel”. Para que o cristianismo tivesse um amplo futuro, era preciso romper com o judaísmo, descartá-lo, torná-lo página vencida. Foi o que fizeram Paulo e seus seguidores.

No livro As 100 Maiores Personalidades da História (Difel), Michael H. Hart pôs o físico e matemático inglês Isaac Newton no segundo lugar de sua lista. O critério de Hart é a influência que cada personagem teve na história da humanidade. O mundo de hoje é conseqüência da Revolução Científica, que agitou a Europa nos séculos 16, 17 e 18. A principal figura daquela revolução foi Newton. Daí sua proeminência na lista de Hart. Em primeiro lugar ficou Maomé, à frente de Jesus, que ficou em terceiro. Hart justifica: Maomé foi o fundador do islã, enquanto a fundação do cristianismo deve ser dividida entre Jesus e Paulo (posto em sexto lugar, atrás de Buda e Confúcio). Ele acrescenta que a civilização tecnológica do ocidente atual não é resultado do cristianismo, mas de outra herança ocidental: o legado do racionalismo grego, pré-cristão. Realmente, para chegar aonde chegou, o Ocidente teve que superar a hegemonia cristã, o que fez por meio do Renascimento, que sepultou a Idade Média, a tenebrosa Idade da Fé. O que foi que renasceu na Renascença? O legado greco-romano, a herança dos filósofos que buscavam explicações naturais e racionais para as coisas do mundo e do homem. Se dependêssemos da outra matriz, a judaico-cristã, estaríamos ainda hoje nas trevas, em todos os sentidos.

Hart poderia acrescentar um motivo importante para pôr Maomé à frente de Jesus pelo critério da influência histórica: o islã é muito mais influente no mundo de hoje do que o cristianismo. O número de cristãos nominais é maior do que o de muçulmanos, mas há muito mais muçulmanos devotos do que cristãos autênticos. Além disso, a influência cultural e política do islã é muito maior. Maomé tem muito mais peso do que Jesus na história do século 21.

Por que, porém, Hart pôs Maomé à frente de Newton? Segundo ele, porque Maomé teve êxito tanto religioso quanto político. E porque ele chegou à proeminência partindo do nada, num lugar onde o vento fazia (e sempre fizera) a curva, um lugar que ele tornou importante no mapa do mundo. É discutível. Mas se Hart viu razões para pôr Maomé no topo da lista em 1992, quando a segunda edição americana de seu livro foi lançada, veria ainda mais motivos hoje.