Livre-arbítrio e Determinismo

Guerras cruéis e sangrentas na televisão! Trágico? Não. Alarmante? Muito menos. Culpados e inocentes? Bobagem. Não existem escolhas, o que matou e o que morreu estavam fadados a matar e a morrer. Pouco importa quem matou e quem morreu. Pouco importa quem sorriu e quem chorou. Pouco importa se as cenas são fortes ou são trágicas. É só o caminhar de uma vida sem razão de ser ou uma vida q individualmente encontramos a razão de ser, e isto também é niilismo.

Imagine que seu pai resolve te presentear por você ter passado no vestibular com um carro. Vocês vão numa grande feira de automóveis. Você se mostra bastante indeciso em meio a tantos carros. No entanto, seu pai sugere: “Escolha qualquer carro, o que sair, saiu”. Ocorre que isso é impossível. Você pode escolher algum carro baseado na cor que prefere, mas a cor de sua preferência pode ser uma herança genética ou traço cultural [veio de fora, veio do determinismo]. Você pode escolher baseado no mais bonito, mas o seu conceito de belo é fruto da sua criação [veio de fora, veio do determinismo]. Você não quer carro antigo porque dizem que é carro de velho ou que não compensa [veio de fora, veio do determinismo] e mesmo que você compre só de birra, ainda assim, seu ato foi determinado pelo seu ímpeto em contradizer a opinião da maioria, porém, este mesmo ímpeto ou é uma herança cultural ou uma característica genética [veio de fora, veio do determinismo]. Não há furo, a escolha é uma ilusão.

Surge a questão se existe livre-arbítrio neste mundo? Será que todas as suas escolhas são realmente suas e são realmente escolhas. A refutação, preconceituosa, de antemão, ao determinismo provém de uma perplexidade sartreana ao fato de não atribuir o culpado ao crime. Ou seja, ninguém poderia ser condenado por crime algum, uma vez que nada decidiu, mas agiu simplesmente por uma série de circunstâncias? Alto lá. Na natureza existe a lei do mais forte, os fracos e oprimidos, são, logo, enfraquecidos e oprimidos, não é o que fazemos com os criminosos? Uma maça podre não tem culpa de ser podre, de ter sido assolada, e nem por isso o ceifeiro a “perdoa”.

O que digo é: não! A pessoa não é culpada por seus crimes, mas quando temos gangrena “arrancamos e jogamos fora”; a gripe combatemos; e o criminoso aniquilamos. O fato de o louco ser protegido pela constituição pela inculpabilidade não faz dele um inocente a um crime, e tampouco previne ele de ser encarcerado [mesmo que seja numa penitenciária psiquiátrica]. O homem que realmente sem intenção atropela um pedestre responde criminalmente pelo “crime que cometeu”, mas ele não tinha culpa? A questão não é essa. Todo crime tem sua conseqüência, e se deseja que cada qual receba a devida equação por seus erros e “erros” no tribunal: o remédio certo para a enfermidade certa. O determinismo de modo algum prega o fim das penitenciárias, mas sabemos que elas são muito mais métodos de contenção de “epidemias” do que de reabilitação. Em poucas palavras, ninguém é culpado, no literal da palavra, pelo crime que comete, porém este câncer, o criminoso, merece a devida terapia: o isolamento! É muito mais um fato natural, pois a natureza não é perfeita, do que uma escolha.

4. Não há nada na sua atitude que seja uma escolha verdadeiramente sua. Uma leitura da literatura de costume de alguém deflagra inquestionavelmente seu modo de agir e é flagrante no seu linguajar. Não é, de modo algum, mera coincidência que pessoas do mesmo meio tem um linguajar parecido. É ter a mente muito estreita acreditar que países como a Rússia, China e República Tcheca tem grande número de ateus por mero acaso; ou que na Itália quase todo cristão seja católico por uma escolha verdadeiramente livre.

Ao passo que normalmente o cachorro preparado para rincha é comumente violento o ser humano educado para ser bandido é comumente criminoso. Mas e as exceções? Oras, temos tanto exceções no mundo animal como no mundo humano e, pasmem, em semelhantes quantidades. Se a natureza não tem livre-arbítrio o ser humano também não deve ter.

O egoístico é nos penalizado (mesmo após ter-se entendido a impossibilidade do inegoístico)

O necessário é nos penalizado (mesmo após ter-se entendido a impossibilidade de um liberum arbitrium e de uma “liberdade inteligível”). (Nietzsche, Fragmentos Finais: 52)

Desculpem-me a presunção, mas o determinismo para mim é algo que não passa de óbvio. Não há um verso do livro da vida que não tenha causa e conseqüência discernível, nem mesmo o pensamento é original, nem mesmo estas palavras que vocês lêem são originais [no sentido amplo], mas o produto de tudo que se fez e de tudo que se faz em todos os tempos. A biografia de qualquer um é o produto da miscelânea de tudo que há ou houve: de capa a capa, de verso a verso, ato a ato.

Se você tivesse os genes de Hitler, sua história de vida, seu contexto histórico-cultural e as oportunidades que ele teve, você seria Hitler para todos os efeitos práticos. Isto é, você faria tudo aquilo que ele fez. (Gondim: 2005, p.200)

Dizem que nós fazemos nossas próprias escolhas, mas quem fez nossas opções?

Clique aqui para ler o resumo do currículo de Mateus Davi