Marx e a religião – II

Começo este artigo por onde terminei o anterior: citando a síntese, escrita pelo próprio Marx, da visão marxista da religião, que vai muito além da simples fórmula “a religião é o ópio do povo”. Repito a citação como ênfase, e também para beneficiar aqueles leitores que não leram o texto anterior. Eis a religião, segundo Marx:

… A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, a alma de uma realidade sem alma. É o ópio do povo.
Abolir a religião, como a felicidade ilusória dos homens, é procurar sua felicidade real. O clamor para que abandonem as ilusões sobre sua condição é uma convocação para que abandonem uma condição que precisa de ilusões.

Como eu disse no outro artigo, a magistral formulação de Marx capta apenas metade do problema, pois mesmo numa sociedade livre, próspera e justa o homem permanece um ser mortal consciente de sua mortalidade, o que abre amplos espaços para a religião. Marx estava certo num ponto, porém: há uma relação direta entre os níveis de religiosidade e os níveis de opressão social. Vejamos o que diz, por exemplo, um estudo resumido pela revista Veja, em sua edição de 24 de setembro de 2003:

Um centro de pesquisa americano entrevistou cidadãos de 44 países para saber a importância da religião na vida deles. Eis o resultado da enquete:

Os países pobres mostraram-se mais religiosos do que os países ricos.

A exceção entre os países ricos são os Estados Unidos, onde seis em cada dez americanos disseram que a religiosidade é fundamental em sua vida.

A população da África é a que tem mais fé. No Senegal, 97% responderam que a religião é muito importante.

Em média, 65% dos latinos [latino-americanos?] são muito religiosos. No Brasil, 77% da população dá grande importância à religião.

A religião só tem prosperado, portanto, em sociedades assoladas pela pobreza, pela grande desigualdade, pela insegurança social ou por uma pressão descomunal sobre o indivíduo. É o que acontece nos Estados Unidos, que têm muita pobreza para o seu nível de renda, têm uma concentração de renda e riqueza muito maior que a do restante do Primeiro Mundo, não têm os mecanismos de proteção social que há na Europa (é cada um por si) e exercem uma pressão colossal sobre cada indivíduo, coagido a ser um winner (vencedor) e não um loser (perdedor). Não é à toa que os americanos são o povo mais pirado do mundo, campeões e recordistas em fenômenos como os serial killers (matadores em série) e os mass murderers (assassinos em massa). (O matador em série mata um ou dois de cada vez; o assassino em massa mata várias pessoas num mesmo episódio). Os índices de criminalidade e de aprisionamento verificados nos Estados Unidos são espantosamente altos se comparados aos do Japão e da Alemanha, por exemplo. Se somarmos a isso a tensão racial e étnica, veremos que a América de maioria anglo-saxônica é um dos países mais opressivos do mundo. Daí seus altos índices de religiosidade, para os quais também contribui o fato de que o país foi fundado por religiosos fundamentalistas.

No outro extremo do Primeiro Mundo, estão os países escandinavos, como a Suécia e a Dinamarca. São sociedades muito ricas, como a americana, mas têm muito menos pobreza e desigualdade que os Estados Unidos, contam com mecanismos avançados de proteção social e não fazem tanta pressão sobre o indivíduo. São, também, países mais relaxados quanto aos costumes: “viva e deixe viver”. Seus índices de criminalidade e violência são muito baixos, assim como seus níveis de religiosidade. De onde se conclui que o fervor religioso é típico de sociedades muito problemáticas. Nisto, pelo menos, Marx estava certo.