Meu caso de amor e ódio com o Fluminense

Comecei a interessar-me por futebol em 1970, aos 11 anos de idade. No ano seguinte, escolhi o time pelo qual torceria, o Flamengo. Antes, porém, de me decidir pelo Flamengo, eu me encantei com um jogo, o maior clássico do futebol brasileiro, o sonoro e colorido Fla-Flu, com o vermelho e preto, de um lado, e o verde, grená e branco, do outro. Poderia ter pendido para qualquer um dos dois. Por que escolhi o rubro-negro? Em parte porque o Flamengo estava por baixo, não era campeão estadual desde 1965, enquanto o Fluminense era o todo-poderoso campeão da Taça de Prata (equivalente ao campeonato brasileiro) de 1970 e campeão carioca de 1969 e 1971. Solidarizei-me com quem estava em pior posição. Mas não foi só isso. Um garoto da minha rua que eu detestava era botafoguense e odiava o Flamengo. Meus irmãos por parte de pai e meus cunhados, de quem eu também não gostava, eram vascaínos e odiavam o Flamengo. Então eu resolvi ser Flamengo.
Minha escolha acabou se revelando muito boa. O Flamengo tem três títulos internacionais (um Mundial, uma Taça Libertadores da América e uma Copa Mercosul), enquanto o Fluminense não tem nenhum. O Flamengo tem seis campeonatos brasileiros, o Fluminense tem três. O Flamengo tem duas Copas do Brasil, o Fluminense tem uma (de quebra o Flamengo tem uma Copa dos Campeões). E o Fla já ultrapassou o Flu em número de títulos estaduais (31 a 30), ressaltando-se ainda que o Flamengo não tem nenhum título compartilhado (o Fluminense tem alguns) e que o rubro-negro, como clube de futebol, é vários anos mais novo do que o tricolor.
A rivalidade existe e é forte, mas eu não tenho raiva do Fluminense. Às vezes torço contra ele, às vezes torço a favor. Depende das circunstâncias. Em 1975 e 1976, por exemplo, o Fluminense tinha um timaço, conhecido como “A Máquina”. A arrogância da torcida tricolor era total. Torci contra o Flu nas semifinais dos campeonatos brasileiros de 1975 e 1976. Em ambas, o tricolor caiu, diante de Internacional e Corinthians, respectivamente, para meu júbilo. Já em 1984 a arrogância era corintiana, e torci pelo Fluminense contra o Corinthians nas semifinais e contra o Vasco, nas finais. Torci contra o Fluminense nas finais da Libertadores de 2008, contra a LDU, do Equador (o Flu perdeu nos pênaltis), mas torci pelo tricolor na reta final do Brasileirão de 2010, para que se consolidasse a quebra da hegemonia paulista iniciada com o título do Flamengo no ano anterior.
Mesmo não tendo raiva do Fluminense, no entanto, não posso deixar de apontar que, em termos de campeonatos estaduais, o tricolor é o Rei do Roubo. Nenhum outro time tem tantos títulos conquistados com a ajuda da arbitragem. Em 1969, foi o gol de mão do ponta-direita Wilton na decisão contra o Flamengo (gol de mão admitido por seu autor e pelo árbitro da partida, Armando Marques). Em 1971, foi a falta no goleiro no gol que deu o título ao Flu contra o Botafogo, que só precisava do empate. Em 1985, o Bangu só precisava do empate, perdeu por 2 a 1 e José Roberto Wright deixou de marcar um pênalti claríssimo a favor do Bangu já nos descontos. Em 1995, o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho na decisão contra o Flamengo foi marcado em impedimento, pois havia um jogador do Flamengo sobre a linha, mas Renato estava além do goleiro. Em 2002, um gol legítimo do Bangu foi anulado na semifinal, anulação que deu a classificação ao Fluminense. E em 2005 o Volta Redonda foi totalmente prejudicado na decisão com o Fluminense, que fez um gol com falta sobre o goleiro e foi beneficiado por uma expulsão injusta de um adversário que nem sequer falta fizera no lance.
Seis títulos estaduais com ajuda da arbitragem entre 1969 e 2005. Realmente o Fluzão é o Rei do Roubo.