Nenhum Deus é tão Deus quanto o Deus de Calvino. Nenhum Deus é tão horrível

Ouvi falar em Calvino e calvinismo pela primeira vez quando fiz as disciplinas Introdução à Sociologia e Teoria Sociológica na Escola de Economia e Ciência Política da Universidade de Londres. Lá estava Max Weber com seu “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que trata sobretudo do papel do calvinismo no deslanche do capitalismo na Europa setentrional (norte) protestante. Weber achava que a doutrina calvinista da predestinação (os salvos são salvos porque Deus os escolheu para serem salvos antes da criação do universo) levava seus adeptos a buscar na austeridade, na dedicação a uma profissão, no investimento para a glória de Deus, no enriquecimento sem usufruto, sem luxo nem luxúria, sinais de que estavam entre os eleitos. Numa época em que o capitalismo dependia mais da poupança e do investimento do que do consumo, o calvinismo teria sido, segundo Weber, um grande propulsor do sistema. No capitalismo ultraconsumista de hoje, com seus shopping centers suntuosos e seus apelos incessantes ao luxo e à luxúria, o calvinismo já não tem nenhum papel econômico.
Isto não significa, porém, que o calvinismo tenha deixado de existir. A Igreja Presbiteriana do Brasil, por exemplo, a IPB, na qual é presbítero o meu amigo de infância o arquiteto Antônio Cláudio Massa, é o principal remanescente fiel do calvinismo em solo brasileiro. A IPB não promete luxo nem riqueza para os convertidos em potencial. Não promete prosperidade, cura e “vitória sentimental”. Por isso a Igreja tem tido crescimento apenas vegetativo, já sendo cinco ou seis vezes menor do que a Igreja Universal do Reino de Deus. A IPB tem hoje em torno de 500 mil membros no país inteiro. Não há dúvida de que o calvinismo é sério, não negocia com a fé, não coloca Deus num balcão de negócios, não transforma Deus num despachante, num office boy, num gênio da lâmpada. Nada soa mais blasfemo aos ouvidos de um calvinista do que ouvir que Deus tem que fazer isso ou aquilo, frase muito comum nos programas de rádio e TV da Universal (não apenas dela). Para um calvinista, Deus não tem que fazer coisa nenhuma, Deus é soberano, Deus faz o que bem entender. Não há essa história de que Deus tem que fazer a parte dele se você fizer a sua.
Por que eu digo que nenhum Deus é tão Deus quanto o Deus de Calvino? Justamente porque o Deus calvinista é absolutamente soberano. Bom é o que ele disser que é bom, não importando o quanto ele fira nossas susceptibilidades. O Deus da Bíblia mandou matar povos inteiros, aniquilar nações, passar no fio da espada tudo aquilo que respirasse? Direito dele, dizem os calvinistas. Ele construiu, ele pode destruir. Ele fez, ele pode desfazer. Ele criou, ele pode “descriar”.
Os calvinistas também não se apertam com a questão, espinhosa para outros cristãos, daqueles numerosos seres humanos que morreram sem ter ouvido falar de Jesus Cristo. Se a salvação é pela fé em Cristo como redentor da humanidade, como ficam aqueles que morreram (e ainda morrem) sem ter ouvido falar de Jesus? Para os calvinistas a resposta é simples: vão para o Inferno, pois não estão entre os escolhidos. Para eles, ninguém merece ser escolhido. O ser humano é absolutamente corrupto, corrompido que foi pela Queda de Adão e Eva, o pecado original, que é transmitido de geração a geração como se fosse uma doença genética. Dentre nós, absolutamente corruptos, Deus escolheu aqueles que ele quis salvar. E ponto final: não cabe a ninguém questionar. A fé autêntica têm aqueles que Deus escolheu para a salvação. A fé é apenas um sinal. Quem salva não é a fé, é Deus.
O Deus calvinista não deve explicações justamente por ser horrível: arbitrário e caprichoso. Como um Jânio Quadros com muito mais poder, o Deus calvinista diz, do alto de sua soberania: “Fi-lo porque qui-lo”. E dane-se quem achar ruim. Não é um dos escolhidos.