O “Misericordioso”

Você sempre ouviu que o Deus da Bíblia (inclusive do Velho Testamento) é bom, justo, amoroso, misericordioso… Mas será que você já ouviu ou leu a passagem bíblica que eu citarei a seguir? Deuteronômio 20, 10-18:

“Quando te aproximares de algumas cidade para pelejar contra ela, oferecer-lhe-ás a paz.

Se a sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá.

Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então a sitiarás.

E o Senhor, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada.

Mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos inimigos que o Senhor, teu Deus, te deu.

Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem as cidades destes povos.

Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego.

Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuzeus.

Para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra o Senhor, vosso Deus.”

Tendo feito a citação a partir da Bíblia com Letra Gigante da SBB (Sociedade Bíblica do Brasil), fiquei curioso em saber como uma Bíblia de estudos, que traz comentários sobre cada trecho, comentaria (e justificaria) essa passagem sangrenta do Deuteronômio. Recorri à Bíblia de Estudo Plenitude, também da SBB, e me surpreendi com a secura do comentário:

“20. 1-20. Este capítulo, junto com 21. 10-14, 23. 9-14, 25. 17-19, fornece instruções significativas sobre a conduta em guerras santas. Israel está conquistando a Terra Prometida; a presença de Deus ao seu lado lhe dará a garantia da vitória, mas será mantida apenas mediante a obediência às suas normas.”

Como se vê, nenhuma tentativa de justificar o injustificável. Ressalte-se que nenhum dos seis povos destinados à aniquilação jamais fizera nada contra os israelitas. A esta altura, é necessário fazer uma comparação entre o genocídio do Deuteronômio e aquele praticado pelos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Ambos envolveram pilhagem, saques, escravidão e trabalhos forçados, assim como a aniquilação de povos inteiros e uma intolerância total contra diferenças étnicas. Uma condenação válida do genocídio nazista requer uma condenação igualmente rigorosa dos massacres bíblicos. Caso contrário, estaremos usando dois pesos e duas medidas. Este é apenas um dos inúmeros textos problemáticos da Bíblia. Se a ler com a mente aberta, você encontrará muitos outros.