O Crepúsculo

Trecho do livro

CAPÍTULO 1

2046. Em sua adolescência o ano 2000 fascinava o mundo. Seria a véspera do terceiro milênio, a ante-sala da Era de Aquário; seria o começo do futuro, a ficção científica a se tornar realidade. Lembrar toda aquela expectativa e excitação tornava estranhos os quase cinqüenta anos passados desde a virada do século, que era agora uma lembrança distante, um pouco mais próxima do que recordações ainda mais remotas.

Era hora de recordar. Quando o presente é a imobilidade e o trem chegou ao fim da linha, o que mais se pode fazer? A parte maior de sua mente estava dominada por reminiscências dispersivas e caóticas. Eram muitas as lembranças e raras as tentativas de julgar atitudes e atos. Julgar para quê? Tirar lições para o futuro? Mas que futuro? Não haveria futuro nenhum; não para ele. Ou melhor, talvez houvesse, talvez ele fosse mais do que um corpo a se extinguir; mas como poderia saber? Sua única quase certeza (pois ainda restava um fio de esperança) lhe dizia que para aquele corpo e aquela identidade – construída em grande parte por experiências que ninguém mais vivera ou viveria – o futuro já tinha chegado e se mostrara um presente terminal. Pela primeira vez ele percebia o significado mais importante da palavra futuro: é o fim da linha com um abismo na frente, uma parede nas costas e um bloco de concreto a descer sobre a vida… na presença da morte. Quando não existe mais nada adiante, então se atingiu o futuro. E, quando isso acontece, o passado se agiganta. Sem nada na frente para se olhar, olha-se para trás, pela pequena janela. Sem nada adiante para se pensar, pensa-se no que passou. O futuro é passadista.

* * *

Futuro não há mais,
pois o futuro já chegou
e o passado agora é tudo,
pois o presente é só lembrança,
memória do que passou,
que mostra pedaço a pedaço
do tempo que se tornou
mero fio de esperança…
pois o futuro já chegou.

* * *

Eu me lembrava do futuro,
do que fazer no ano seguinte.

Eu me lembrava do presente,
do belo presente que eu queria comprar.

Eu me lembrava também de sua face atraente,
de convidá-la ao prazer
de um longo jantar.

Mas agora só me lembro (com um pouco de sentido)
dos minutos que voaram para muito além do mar,
do grande mar que me separa da semana que passou;
da semana que voou… para nunca mais voltar.

* * *

Enquanto me acabo sozinho
(enquanto o mundo se vai)
penso em tudo que já fiz
ou não quis,
não farei mais.
No que poderia ter feito
ou não me deixaram fazer;
no que tristemente não fiz…
por simplesmente não ver.

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