O deboche autoritário incomoda pouca gente, mas incomoda

Lulinha e Dilminha estão deitando e rolando. Inauguraram, pela terceira vez, na forma de comício eleitoral televisionado para todo o Brasil, uma obra inconclusa. Da mesma forma, inauguraram uma escolinha com 13 computadores numa favela de 100.000 moradores. Da mesma forma, inauguraram uma obra em que o governo federal não colocou um tostão. Tudo isso em campanha antecipada e ilegal. Financiada com dinheiro público, há mais de um ano avassala o Brasil a mais cara e abusiva campanha eleitoral da era da Nova República. Em sendo pouco, do abuso passou-se ao deboche. Dia desses, o presidente Luiz Inácio cantarolou de cima de mais um palanque: “Um Lulinha incomoda muita gente, uma Dilminha incomoda muito mais”. Isto é engraçado, mas é também campanha antecipada e ilegal.

Por que o presidente Lula pode praticar ilegalidades impunemente? Porque tem força para isso. A sem-cerimônia de Lula e Dilma nos palanques fora de hora e fora da lei significa um avanço no projeto autoritário do PT. Desde o início do governo Lula, o presidente e seu partido fazem ensaios autoritários: quando não dá, recuam; quando sentem moleza, avançam. Com o TSE, a moleza é total; então avançam.

O projeto autoritário do lulo-petismo tem sido barrado por reações pontuais. Porém, dureza mesmo ele não tem encontrado. Por isso vai contornando obstáculos e avançando. Com recuos táticos, avança estrategicamente, seguindo a receita leninista: “um passo atrás, dois à frente”.

O escândalo do mensalão, que por algum tempo coibiu o avanço autoritário do lulo-petismo, hoje lhe serve de reforço, porquanto os petistas denunciados continuam impunes, soltos, por cima da carne seca, dando as cartas.

O governador José Roberto Arruda, corrupto do Dem, foi preso e continua preso. Antes de ser preso, o governador já fora obrigado a deixar o partido, porque seria expulso. Enquanto isso, os corruptos do PT, além de soltos e fagueiros, reassumiram a direção do partido. Perto dos quadrilheiros do mensalão do PT, Arruda é um amador, ladrão besta, ladrão de galinha.

Certos da impunidade, os petistas tratam o tenebroso caso da Bancoop com desdém. O líder do PT na Câmara faz pouco caso do Ministério Público, desafia e insulta o procurador denunciante. No entanto, os indícios da roubalheira são robustos, escancarados; insofismáveis, diríamos. Mas os petistas não só sofismam como debocham. Um desses deboches é dizer que se trata de denúncia antiga. Porém, digo eu, não tão antiga que o crime esteja prescrito. Segundo a denúncia muito bem fundamentada do procurador José Carlos Blat, a Bancoop – Cooperativa Habitacional dos Bancários desviou para benefício dos seus dirigentes e para as campanhas do PT o dinheiro de milhares de cooperados, que investiram no sonho da casa própria e terminaram na rua da amargura.

Aquele gracioso dito do presidente Lula, referido no início deste artigo, não está certo; e o presidente sabe disso. Um Lulinha e uma Dilminha fazendo campanha ilegal não incomodam muita gente; pelo contrário, esta muita gente aplaude e se deslumbra com as ilegalidades e vulgaridades do Lulinha. Todavia, incomoda. Incomoda pouca gente, mas incomoda. Essa ilegalidade eleitoral emoldura os arreganhos autoritários do lulo-petismo, cujo conjunto incomoda ainda mais.

Lula e o PT, os entes políticos mais bajulados pela imprensa em toda a história do Brasil, deram de esculhambar com a imprensa. Atingido por algumas críticas, que mal afloram à superfície de um mar de bajulação, o PT reagiu se dizendo vítima de uma “guerra de extermínio” por parte da mídia. Um cinismo de lascar. Para alguns, uns poucos, foi demais. O jornal Folha de São Paulo reagiu em editorial. E a Folha, que parece fazer sinceros esforços de isenção, sempre foi mais petista do que anti-petista, mais lulista do que anti-lulista. Tanto é assim que tem dentre seus valorosos quadros alguns dos mais insignes lulo-petistas do jornalismo, como, por exemplo, o simpático e competente puxa-saco Kennedy Alencar. Pois, dessa vez a Folha saiu de cima do muro e publicou um editorial valente, que entrará para os anais da história da luta democrática. Recomendo a leitura e, igualmente incomodado com os arreganhos autoritários do lulo-petismo, finalizo este artigo com um trecho candente do referido editorial:

“Autoabsolvido pelo venerável espírito hegeliano-marxista da história, o petismo pode fazer tudo o que condenava em seus adversários, e apresentar-se ainda assim como detentor das virtudes mais cristalinas. Quem apontar a farsa será tachado de inimigo dos trabalhadores – e, na tese de uma imaginária ‘guerra de extermínio’, o PT mostra apenas a sua própria tentação totalitária. Nessa lógica que não admite críticas, faz-se de perseguido aquele que se apronta para perseguir; faz-se de vítima quem pretende ser algoz; faz-se de democrata o censor, de honesto o corrupto, de inocente o bandido”.