O direito de blasfemar
“Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.” Foi o que escreveu o colunista André Petry, da revista Veja, na edição do último sábado. Concordo plenamente. A religião convive muito mal com a liberdade de expressão. A religião é absolutista por natureza, enquanto a liberdade de expressão depende de uma certa dose de relativismo. No Ocidente – depois do Renascimento, do Iluminismo, de Marx, Darwin e Freud, da Revolução Científica, da Revolução Industrial etc. –, os religiosos não têm mais o poder de impedir, de um modo geral, a liberdade de expressão, embora tentem muito e consigam fazê-lo em alguns casos. O Islã, no entanto, não teve Renascimento nem Iluminismo nem Marx, Darwin e Freud nem Revolução Científica ou Revolução Industrial. O absolutismo de Alá e Maomé não consegue conviver pacificamente com a liberdade de expressão, não consegue entender e aceitar que grande parte da realidade é subjetiva e, portanto, relativa.
Há um mundo lá fora, sem dúvida. Um mundo real. Mas há também os significados que atribuímos a esse mundo e a seus aspectos e detalhes. E os significados são subjetivos. Não há, por exemplo, objetos objetivamente sagrados. Se um grupo de algumas pessoas atribui um caráter sagrado a uma determinada cadeira, por exemplo, aquela cadeira será sagrada. Para eles. Não o será para o resto da humanidade. A cadeira em si não é sagrada. Seu caráter sagrado está na mente de cada um de seus cultores. Alá em si não é sagrado, se é que ele existe. Jesus Cristo em si não é sagrado, se é que ele existe. Shiva só é sagrado na cultura hindu. Os muçulmanos e os judeus não comem carne de porco, porque o porco é espiritualmente impuro. Para eles. Não para os cristãos, hindus, xintoístas etc. Já os hindus não comem carne bovina, pelo motivo contrário. Para eles o boi e a vaca são sublimes. Onde está a sublimidade bovina? Na cultura hindu, evidentemente. Na mentalidade dos hindus, em sua subjetividade, do mesmo modo que a impureza espiritual do porco está nas culturas islâmica e judaica. O caráter sublime, sagrado ou impuro é um significado que se atribui. Não faz parte da realidade lá fora. É uma construção mental. Muçulmanos querem esfolar um punhado de chargistas por causa de algo que está na cabeça deles. Dos muçulmanos, não dos chargistas.
É tabu para os muçulmanos reproduzir a imagem de Maomé. O próprio Maomé proibiu. Não queria que acontecesse com ele o que aconteceu com Jesus, que acabou divinizado pelos cristãos. Para o islamismo, Deus é único e uno, não há aquela história de Santíssima Trindade, que eles consideram pura idolatria. Para os muçulmanos, os cristãos cometem um pecado gravíssimo ao adorar Jesus Cristo como Deus. Para evitar adoração a Maomé, os muçulmanos não aceitam a reprodução de sua imagem. O mais interessante nisso tudo, porém, é que o tabu em relação à imagem de Maomé acaba sendo uma forma de sacralizá-lo, de adorá-lo. Os católicos adoram Cristo reproduzindo sua suposta imagem; os muçulmanos adoram Maomé cultivando um tabu em torno da imagem dele. Um cartaz mostrado por muçulmanos radicados na Áustria dizia: “Nós vivemos para Maomé; nós morremos por Maomé”. Deveriam dizer que vivem e morrem por Alá e para Alá. Sem perceber, estão cometendo o que eles próprios consideram o grave pecado da idolatria.
Dito tudo isso, é preciso reconhecer que a revolta dos muçulmanos contra o Ocidente, ao contrário do que a revista Veja nos quer fazer acreditar, não é apenas cultural e religiosa. Eles têm queixas muito justas contra o sistema ocidental de poder, como a opressão dos palestinos por Israel com respaldo americano, a invasão do Iraque, a ocupação do Afeganistão, o domínio americano sobre as monarquias da península arábica e assim por diante. Por maior que seja o nosso repúdio ao atraso mental do mundo islâmico, não devemos nos esquecer disto.



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