O judeu que deve sua vida a Hitler (e o espanhol que ganhou na loteria por ser ruim de tabuada)
Durante minha graduação em sociologia, estudei o livro How to Lie with Statistics (“Como mentir com estatísticas”), clássico de Darrell Huff. Há poucos anos, li O que é estatística, da coleção “Primeiros Passos”, livro que se baseia na obra de Huff. Agora, acabei de ler Risco – A ciência e a política do medo, de Dan Gardner, editora Odisséia, texto que ensina muito sobre como perceber o uso manipulatório de estatísticas.
Um exemplo de Gardner: imagine que alguém lhe diz que o remédio x aumenta o risco da doença y em 40%. Você muito provavelmente ficará alarmado. Mas se for acrescentado que o risco da doença y é de 1% (uma chance em 100) e que o remédio x aumenta esse risco de 1% para 1,4%, ou seja, de uma chance em 100 para 1,4 em 100, sua percepção será bem diferente. A primeira afirmação, portanto, não é mentirosa, mas é enganosa e provoca um medo infundado.
Os riscos do terrorismo, diz Gardner, são extremamente exagerados com fins políticos e econômicos. Se houvesse um 11 de setembro por mês nos Estados Unidos ao longo de um ano, isto é, um conjunto de ataques terroristas que matassem em torno de três mil pessoas por mês durante um ano, ainda assim a probabilidade de se morrer num acidente de trânsito em território americano (uma em 6.498) seria maior do que a de morrer num ataque terrorista (uma em 7.750, na hipótese de um 11 de setembro por mês durante um ano). Livros como este nos dão uma visão mais realista do mundo.
Tendo concluído a leitura de Risco, estou começando a ler O andar do bêbado – Como o acaso determina nossas vidas, do físico Leonard Mlodinow. Mal comecei a leitura, mas já vi que a cada parágrafo vai dar vontade de mandar um e-mail para os amigos com alguma informação fascinante tirada do livro. Como a história do espanhol que ganhou na loteria por ser ruim de tabuada. Ele ganhou com um bilhete cujo número terminava em 48. E explicou por que escolheu esse bilhete: “Eu sonhei com o número 7 sete dias seguidos. 7×7 é 48; por isso escolhi um bilhete que terminasse em 48”. Nós, que somos menos ruins em tabuada, sabemos que 7×7 é 49. Se o espanhol soubesse disso, não teria ficado rico.
Já o autor do livro, Leonard Mlodinow, deu-se conta de que deve sua existência a Adolf Hitler, porque seu pai, um sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald, perdeu a mulher e os dois filhos do primeiro casamento no Holocausto e, ao fim da guerra, emigrou para Nova York, onde conheceu a mãe de Leonard. Ou seja, no Hitler, no Leonard. Isto é, sem Hitler e sem o Holocausto, o físico Leonard Mlodinow nunca teria tido a chance de existir. É claro que Mlodinow, seu irmão e os descendentes deles não são os únicos judeus e não-judeus que devem sua existência a “Adolf”, como chama Brüno, personagem do comediante, também judeu, Sacha Baron Cohen, que fez também o impagável Borat, do filme homônimo.
Os exemplos deverão se multiplicar ao longo das páginas de O andar do bêbado. Mas me vêm à cabeça agora Michael Jordan, o superastro do basquete americano, e Pelé. Sem a escravidão, nem Jordan nem Pelé jamais teriam existido. Suas existências gloriosas, e as existências gloriosas de inúmeros outros negros do Novo Mundo, são efeitos colaterais da escravidão.
Muitos casais, que vieram a ter filhos e netos, conheceram-se em comemorações futebolísticas, como a dos argentinos pela conquista da Copa do Mundo de 1978. Aquela conquista só aconteceu porque a Holanda chutou uma bola na trave no último minuto. O jogo estava 1 a 1. Se aquela bola tivesse entrado, não teria havido a prorrogação que deu a vitória à Argentina e os holandeses teriam sido campeões. E aí a comemoração teria sido na Holanda. Casais holandeses teriam se formado na festa, teriam tido filhos e netos e hoje existiria um monte de gente que não existe e nunca vai existir.
Você só existe porque seus pais existiam, se conheceram, se casaram, fizeram sexo naquele dia específico, naquela hora específica, seu pai ejaculou naquele instante exato e um dentre milhões de espermatozóides fertilizou um dentre centenas de óvulos. Tudo muito improvável. É muita sorte (ou muito azar) você existir. Mas o mundo é feito de improbabilidades. É tão certo quanto dois mais dois igual a quatro que inúmeras improbabilidades se materializam. Você é uma delas. Parabéns.



Olá! Meu nome é 



Dr. Cleverson
em 26 de agosto de 2009
Estatistica e Probabilidade! Tudo vê, tudo pode! Pobres seres humanos que vivem como uma função de onda ! Ja sonhava Schrödinger nos números de sua mecânica quântica… Felizes dos que delas se aproveitam! Mas como dizia Newton: “Tudo depende de um referencial”.
Boa materia Gilson!
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Gilson
em 27 de agosto de 2009
Obrigado, Dr. Cleverson.
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Maumaxverde
em 30 de janeiro de 2011
Por um acaso cheguei a este site; acordei colocando trechos de Bruno no WMP Classic, e por conseguinte algumas cenas que chocaram, resolvi procurar saber mais deste doidão judeu do filme. Minhas palavras no Google: Sacha Baron, judeu e Hitler… e caí aqui… mas, se eu tivesse acordado e ao invés de tudo isto, acessasse o Globoesporte.com pra ver os gols de ontem? Muito provavelmente não teria lido este muito bom e esclarecedor artigo…
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