Ouçamos a voz de Epicuro

Na semana passada, paramos em Sócrates. Comecemos, portanto, por Platão, o discípulo de Sócrates que fez o registro escrito do pensamento do mestre, depois de sua morte por envenenamento compulsório. Após apresentar o pensamento socrático, Platão desenvolveu seu próprio pensamento: vivemos num mundo de sombras, um mundo de cópias imperfeitas, mal-feitas mesmo, das Idéias ou Formas que habitam um mundo paralelo ao nosso e superior a ele. Todos os cavalos aqui existentes, por exemplo, são como sombras do Cavalo com maiúscula, um ser perfeito que habita o mundo das Idéias ou Formas.

Depois de Platão, veio Aristóteles, aluno de Platão como este fora de Sócrates. Para Aristóteles, não existe o tal mundo das Formas. Não há o cavalo ideal. Não há o Cavalo com inicial maiúscula. O que há são múltiplos cavalos particulares, concretos, diferentes um do outro, dos quais abstraímos características comuns que dão sentido ao conceito de “cavalo”. Aristóteles foi um ordenador, um classificador, um organizador de conhecimento, que elaborou, entre outras, a teoria das quatro causas. Uma estátua, por exemplo, tem quatro causas. A causa material: o mármore de que é feita. A causa formal: a forma prévia da estátua na mente do escultor. A causa motriz ou eficiente: o trabalho manual do escultor na modelagem do mármore. A causa final: a finalidade a que a produção da estátua atende (atender a uma encomenda, expressar os sentimentos do escultor, compor uma exposição etc.). Aristóteles foi também o criador da lógica silogística, aquela que funciona por meio de silogismos. Vejamos um silogismo, sempre composto de premissa maior, premissa menor e conclusão. Premissa maior: Todos os homens são mortais. Premissa menor: Sócrates é um homem. Conclusão: Logo, Sócrates é mortal. Num silogismo, se as premissas forem corretas, a conclusão também o será, forçosamente. É uma questão de lógica. As realizações de Aristóteles foram impressionantes, mas ele também cometeu um monte de erros, como endossar a teoria dos quatro elementos de Empédocles, que vimos na semana passada, desprezando a teoria atômica de Leucipo e Demócrito, a qual antecipou em cerca de vinte séculos aspectos fundamentais da ciência moderna.

O período posterior ao declínio de Atenas como cidade-estado ficou conhecido como Período Helenístico, por causa do Império Helenístico estabelecido por Alexandre, depois fragmentado nos reinos helenísticos, finalmente destruídos pelo Império Romano. A filosofia helenística teve três correntes principais: o estoicismo, o ceticismo e o epicurismo. Vou, por enquanto, discorrer apenas sobre o epicurismo. Para Epicuro, não há nenhum grande sentido para a vida: não há nada do “outro lado”, a fama e a fortuna só existem em algumas sociedades, sendo desconhecidas em outras, e assim por diante. O que então dá sentido à vida são os pequenos prazeres, como matar a fome, mesmo que seja com um pão. O que dá sentido à vida, dizia Epicuro, é dar um caminhada, olhar um pôr-do-sol, brincar com uma criança, fazer festa com um cachorro, conviver com os amigos, fazer uma boa leitura… Dizia Epicuro que devemos valorizar especialmente os pequenos prazeres que nos são acessíveis. Se o sexo nos é acessível, ótimo, aproveitemo-lo. Se não, concentremo-nos em outras coisas. Ele dava uma importância particularmente forte à convivência com os amigos. O mais importante, para o epicurismo, é descartarmos a ditadura do “deveria”: eu deveria ser mais bonito, eu deveria ter mais dinheiro… Quanto à morte, não pode atingir-nos, dizia Epicuro. Se nós existimos, ela não existe, e o que não existe não nos pode atingir. Se a morte passa a existir, agora somos nós que não existimos mais. Se não existimos, nada pode nos atingir. Curtamos os pequenos prazeres, proclamava Epicuro, sem temer a morte nem os deuses, que são apenas nossas criações mentais, sendo portanto inofensivos. Ouçamos a voz de Epicuro.