Ouçamos a voz de Sócrates

A filosofia grega é habitualmente dividida em períodos: os pré-socráticos (ou filósofos da natureza), os sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles e o período helenístico, abrangendo o ceticismo, o estoicismo e o epicurismo (pretendo escrever na próxima semana o artigo “Ouçamos a voz de Epicuro”).

Os pré-socráticos ou filósofos da natureza foram os primeiros pensadores a romper com o pensamento mítico ou mitológico para tentar explicar o mundo racionalmente. Sua preocupação era dizer do que o mundo é feito, que essência está por trás e por baixo de toda a diversidade que vemos. Tales de Mileto, por exemplo, achava que o mundo é feito de água, nos mais diversos estados de condensação. Anaxímenes, também de Mileto, cidade grega da Ásia Menor (hoje a Turquia) pensava que o princípio fundamental era o ar, que, através de rarefação e condensação, formaria todas as coisas. Empédocles criou a teoria dos quatro elementos: o mundo seria formado de terra, ar, fogo e água em diferentes combinações, teoria que seria aceita por séculos, depois de endossada por Aristóteles. Os pré-socráticos mais bem sucedidos do ponto de vista da ciência de hoje foram Leucipo e Demócrito, que viam o mundo formado por átomos. Não acertaram totalmente, pois consideravam os átomos irredutíveis e indivisíveis, quando os átomos são, na verdade, formados por prótons, nêutrons e elétrons, os prótons e nêutrons se constituem de quarks, e os quarks talvez sejam constituídos de coisas ainda menores. Leucipo e Demócrito, no entanto, acertaram muito mais que Empédocles e Aristóteles, com sua teoria dos quatro elementos.

Depois dos pré-socráticos, dos quais mencionamos apenas alguns, vieram os sofistas, que destituíram a filosofia de qualquer conteúdo. Eram argumentadores brilhantes que reduziram a filosofia a técnicas de argumentação: para eles a filosofia podia ser usada para justificar ou condenar qualquer coisa. O mais famoso dos sofistas, Protágoras, resumiu a visão sofística com a célebre fórmula: “O homem é a medida de todas as coisas”, ou seja, não há verdade alguma fora da mente de quem argumenta.

Sócrates combateu os sofistas, mas não o fez com uma filosofia sistemática. Sócrates nada escreveu. Ele apenas perguntava. Por isso ficou conhecido como o homem que perguntava. Se alguém falava em virtude, Sócrates imediatamente perguntava o que era a virtude, mostrando que seu interlocutor não sabia do que estava falando. Se alguém usasse a palavra “sagrado”, Sócrates indagava: “É sagrado o que é sagrado porque os deuses o aprovam, ou os deuses o aprovam porque é sagrado?”. Ou seja, de onde vem o caráter sagrado de algo? Do arbítrio dos deuses, dos arbitrários caprichos divinos? Ou de algo que está acima dos deuses? O que poderia estar acima dos deuses? Se há algo acima dos deuses (a razão, por exemplo), os deuses continuam a ser deuses? Sócrates aporrinhou tanto os atenienses com suas perguntas que os obrigavam a pensar, e a questionar tudo, que acabou condenado à morte por ingestão do veneno cicuta, acusado e condenado por “corromper a juventude”. A morte de Sócrates, porém, não matou suas indagações, nem o espírito questionador que havia, e há, por trás delas. “Perguntar não ofende”, dizia o bordão humorístico de um programa de TV. Perguntar, entretanto, ofende sim, ofende fortemente os cultuadores de dogmas, de frases feitas, de pensamentos prontos, de crenças não examinadas. “Conhece-te a ti mesmo”, sugeriu Sócrates. Ouçamos a voz de Sócrates.