Por que a narrativa sobre Adão e Eva não pode ser uma alegoria

Este artigo trata da centralidade da história de Adão e Eva, tomada literalmente, para o cristianismo em todas as suas formas e variações. A ligação direta da figura supostamente redentora de Jesus Cristo com os fundadores da “humanidade decaída”, Eva e Adão, faz com que estes não possam ser dispensados nem alegorizados, transformados em meros símbolos da criação da humanidade por Deus. O artigo trata também dos problemas acarretados para o cristianismo por sua dependência conceitual e estrutural dos personagens de Adão e Eva e de sua história.

A primeira das várias contradições da Bíblia vem logo no início, no Gênesis. Há dois relatos da criação, o primeiro em Gn 1 e Gn 2: 1 a 3, e o segundo em Gn 2: 4 a 24. No primeiro relato, Deus – chamado de Elohim – cria todos os animais, inclusive os domésticos, e depois – como ponto culminante da criação – cria ao mesmo tempo o homem e a mulher. No segundo relato, Deus – chamado de Javé – cria Adão, depois cria os animais, um a um, trazendo-lhes a Adão para que ele lhes dê seus respectivos nomes. (Será que Adão, o primeiro zoólogo, deu nome a cada uma das centenas de milhares de espécies de besouros?). Finalmente, para fazer companhia a Adão, Javé cria Eva a partir de uma costela de Adão. No livro Pilares do Tempo, que trata das relações entre ciência e religião, o paleontólogo americano Stephen Jay Gould fala da perplexidade e da incredulidade de muitos cristãos quando ele lhes diz que há dois relatos bem diferentes da Criação no início do Gênesis. A recomendação de Gould é simples: leiam o Gênesis; leiam e confiram.

O objetivo deste artigo, entretanto, não é expor contradições da Bíblia nem tratar das quatro fontes do Pentateuco identificadas pelo estudioso alemão Julius Wellhausen no século XIX. O que nos interessa é que após a divergência inicial a história continua. Adão e Eva vivem num jardim paradisíaco, em que nenhuma criatura sofre e nenhuma criatura causa sofrimento a outra. Bem diferente dos jardins atuais, cuja beleza e aparente calma ocultam uma feroz luta pela vida entre insetos e entre insetos e pássaros, entre outros animais. Adão e Eva são advertidos por Deus de que não podem comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A desobediência de ambos (primeiro dela, depois dele) constitui o episódio crucial conhecido no cristianismo como A Queda. A Queda é o primeiro dos três grandes eventos do cristianismo, sendo o segundo a vinda de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição, e o terceiro o esperado retorno de Jesus. Para que veio Jesus? Veio para redimir a humanidade. Para redimir a humanidade de quê? Ora, para redimir a humanidade dos efeitos perniciosos justamente d’A Queda. Como se vê, Adão e Eva não podem ser uma mera alegoria que expresse a criação do ser humano por Deus. Ainda se poderia argumentar que eles são uma alegoria da desobediência da humanidade inteira, centenas de milhares de pessoas em tempos primitivos, ao Criador. Se, no entanto, a desobediência tivesse sido cometida por centenas de milhares de pessoas, isto significaria que a humanidade foi criada por Deus como uma máquina de desobedecer e pecar, programada para desobedecer e pecar, sem nenhuma possibilidade de conceber-se algo semelhante ao livre arbítrio. Para que tenha algum sentido como expressão da ruptura do ser humano com Deus, é preciso que A Queda tenha sido um episódio privado, particular, ocorrido na intimidade de um indivíduo ou de um casal.

Até o século XIX, não se tentava alegorizar o episódio da Queda. Aliás, não se tentava alegorizar parte nenhuma da Bíblia. Desde os seu primórdios até o século XIX, a Bíblia sempre foi vista pelos fiéis como a verdade literal, a palavra literal de Deus. As tentativas de alegorização têm sido uma tentativa de salvar a Bíblia dos avanços irresistíveis da crítica bíblica e do conhecimento cientifico. Se levarmos a sério a história de Adão e Eva, teremos uma humanidade de pouco mais de seis mil anos, tempo estabelecido pelas genealogias do Velho Testamento. Teremos também um mundo em que a ferocidade da luta pela sobrevivência é conseqüência não do processo de evolução pela seleção natural, mas de um ato de dois seres humanos. Sim, pois a acreditar-se na história de Adão e Eva os jardins só se tornaram campos de batalha depois da Queda. É como se vivêssemos num mundo criado pelo homem, e não por Deus. Ou como se Deus tivesse realizado uma segunda criação, esta maligna, por causa da Queda. Para o cristianismo, os animais não-humanos sofrem e fazem sofrer por causa do homem. E tudo isso só será superado com o retorno de Cristo, quando o leão supostamente pastará em mansidão ao lado da ovelha.

Totalmente incompatível com a ciência moderna, o relato de Adão e Eva e da Queda só pode ser uma alegoria, pensam os cristãos mais esclarecidos. Contudo, como vimos, a alegorização da Queda torna sem sentido o conceito de pecado original e a idéia de redenção por meio de Jesus Cristo. Torna sem sentido a própria figura de Cristo, o que faz desabar, em espetacular implosão, todo o edifício do cristianismo.

Se depende de uma alegorização insustentável, se depende de uma narrativa frontalmente contrária a tudo aquilo que nos diz a ciência moderna, o cristianismo está filosófica e cientificamente refutado.

* * *

Pós-Escrito: Após o Debate

Este capítulo da dissertação foi apresentado como artigo no Grupo de Trabalho 3 do I Simpósio Internacional em Ciências das Religiões, realizado na Universidade Federal da Paraíba entre 16 e 18 de julho de 2007. O debate foi breve, devido às limitações de tempo. Mas levantou alguns pontos que requerem esclarecimentos adicionais. Optei por escrever este Pós-Escrito, ao invés de mudar o texto original. Parece-me ser este o caminho mais interessante e informativo para os leitores da dissertação ou do artigo, que têm acesso a toda a gênese dos acréscimos decorrentes do debate. Vejamos alguns pontos levantados, respondidos e aqui desenvolvidos.

1. Na apresentação oral, eu mesmo tomei a iniciativa de mencionar o Renascimento e o Iluminismo como preliminares aos grandes avanços antibíblicos do século XIX, que forçaram os adeptos da Bíblia a uma série de alegorizações reativas que atravessaram também o século XX.

2. A mais famosa tentativa de alegorização do Renascimento foi aquela feita por Galileu Galilei, não com o objetivo de salvar a Bíblia, mas com a intenção de salvar literalmente a própria pele, do fogo da Igreja Romana. No geral, o Renascimento, mesmo tirando a habitação do homem do centro do universo e diminuindo o lugar de Deus nas preocupações intelectuais do homem europeu, não bateu de frente com as instituições religiosas, realizando grande parte de seus feitos artísticos em parceria com a Igreja de Roma.

3. O Iluminismo, mais anticlerical do que antibíblico, representou um forte desafio às instituições eclesiais nos estertores do século XVIII, aquele que terminou, segundo o historiador anglo-austríaco Eric Hobsbawm, em 1789, com a Revolução Francesa. O primeiro livro aberta e sistematicamente ateu, segundo Julian Baggini (p. 78), foi O Sistema da Natureza, do francês Barão d’Holbach, publicado em 1770, apenas dezenove anos antes da Revolução e do início, segundo Hobsbawm, do século XIX, que terminaria em 1914 com a deflagração da I Guerra Mundial (o século XX, por sua vez, iniciado em 1914, teria terminado em 1991, com a queda da União Soviética). Somente no século XIX, as forças religiosas conseguiram articular reações consistentes ao desafio iluminista.

4. Os desafios a partir do século XIX, de qualquer modo, foram muito mais poderosos. A teoria da evolução pela seleção natural e a descoberta da idade da Terra, particularmente, abalaram as estruturas bíblicas de uma forma que teria sido totalmente impossível para renascentistas e iluministas, pela própria falta de conhecimento. Por isso, além das razões mais acima, privilegiei o século XIX no trabalho apresentado no Simpósio.

5. Objetou-se que leituras alegorizantes da Bíblia ocorriam na Antiguidade e na Idade Média. Sim. No entanto, tratava-se de outro tipo de alegorização, não aquele a que me refiro, ou seja, as tentativas de manter a validade da Bíblia mesmo diante de sua reconhecida falta de veracidade. A alegorização antiga e medieval foi muito bem definida pelo Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, na página 146 de sua primeira edição. Alegoria no sentido teológico: “Método de interpretação das sagradas escrituras usado por teólogos cristãos antigos e medievais, em que se almejava a descoberta de significações morais, doutrinárias, normativas etc., ocultas sob o texto literal”. Isto é, a alegorização antiga e medieval, diferentemente da alegorização moderna e contemporânea, não buscava substituir a leitura literal por uma leitura figurada, mas tão-somente complementar a leitura literal, extraindo dela suas implicações morais, doutrinárias e normativas. De fato, até o século XIX praticamente nenhum intérprete cristão – romano, ortodoxo ou protestante – duvidava da veracidade do relato da Queda. O que eles faziam era extrair do episódio da Queda uma série de normas, doutrinas e ensinamentos morais. Bem diferente, repito, do que se faz hoje em dia. Nesta dissertação, eu me refiro a alegorização da Bíblia no sentido moderno e contemporâneo.

6. Objetou-se, ainda, que a ciência não pode julgar a religião, por serem modos diferentes e complementares de conhecimento humano. Na verdade, como demonstro em outras passagens desta dissertação, tanto a ciência quanto a religião fazem afirmações sobre a realidade. E fazem afirmações que não se conciliam. Por isso, são magistérios rivais, e não complementares. E a ciência é superior, por basear-se em evidências, não em dogmas, e por fundamentar-se no pensamento racional – argumentativo e demonstrativo, sujeito a contestações e revisões –, não na fé inquestionável.

7. No final do debate, afirmou-se que a teoria da evolução pela seleção natural não está provada, o que já demonstramos não ser verdade. Não apenas a teoria da evolução está provada, como é incompatível com qualquer forma de teísmo, conforme argumentamos no Capítulo 2 desta dissertação.

8. Não houve, antes do século XIX, nenhum crítico bíblico do porte de Julius Wellhausen, o alemão que descobriu as quatro fontes do Pentateuco, demonstrando que os cinco primeiros livros do Velho Testamento não foram escritos por Moisés, como se pensava até então e como a grande maioria dos cristãos e judeus pensa ainda hoje. Ressalte-se que no Novo Testamento Jesus presume que o Pentateuco foi escrito por Moisés, como em Marcos 7:10.

9. No livro Pelos Caminhos da Bíblia – Uma Viagem através do Antigo Testamento, o jornalista americano (judeu) Bruce Feiler (pp. 118-9) afirma: “Em 1800, a Bíblia era vista em quase todo o mundo como a verdadeira e indiscutível palavra de Deus. O Pentateuco, em especial, teria sido escrito por Moisés; os episódios, historicamente exatos; seu teor, divino. No decorrer do século 19, essa perspectiva passou por uma análise incessante e minuciosa”. Feiler arremata que vários estudiosos europeus e americanos fizeram a Bíblia descer das alturas intocáveis em que se encontrava e inseriram-na com firmeza na História. Tudo isto ocorreu, ressalte-se, a partir do século XIX.

10. No livro The Twilight of Atheism – The Rise and Fall of Disbelief in the Modern World, Alister McGrath, professor de teologia histórica na Universidade de Oxford, afirma na p. 15: “Embora o período tenha testemunhado algumas críticas significativas às idéias fundamentais do cristianismo, o século 18 não viu uma grande erosão da fé”. Na p. 98, McGrath põe o dedo na ferida: “Não há dúvida de que a teoria da evolução de Charles Darwin levou a morna crise da fé na Inglaterra vitoriana a explodir em chamas”.

11. Autor de Natural Theology (1802), o reverendo William Paley mostrou como os mecanismos da natureza são complexos e como era necessário que Deus os tivesse projetado tais como são. Paley comparou órgãos como o olho humano a um relógio: assim como um relógio pressupõe um relojoeiro, um olho pressupõe Deus. Ou seja, as espécies teriam sido criadas prontas, teriam sido criadas tais como são, exatamente como afirma o Gênesis. McGrath demonstra (p. 100) que na primeira metade do século XIX Paley era leitura obrigatória para os alunos de graduação da Universidade de Cambridge, inclusive os de biologia.

12. Ressalte-se: o Gênesis não diz simplesmente que Deus criou a vida, mas que ele criou as espécies tais como elas são. Somente com a publicação de A Origem das Espécies, em 1859, alguns religiosos passaram a enxergar a necessidade de transformar o Livro do Gênesis numa alegoria da criação da vida (e não mais das espécies) por Deus. A alegorização do Gênesis é pois, como deixei claro, uma reação desesperada e tardia.

13. Objetou-se, por fim, que o conceito de livre arbítrio, por mim mencionado, é problemático. Claro que é. Mas a punição de Adão e Eva por Deus, punição extensiva a toda a Criação, pressupõe que eles tiveram liberdade de escolha. Caso contrário, teriam sido criados por Deus como máquinas de desobedecer e pecar, teriam feito o que foram programados para fazer, e sua punição não teria nenhum sentido, literal ou alegórico.

14. As teses centrais do capítulo ou artigo, a de que a narrativa da Queda não pode ser uma alegoria e a de que sua necessária literalidade derruba intelectualmente o cristianismo, passaram pelo debate sem arranhões. Mesmo assim, estes pontos adicionais deixam evidente a importante contribuição do Simpósio para este texto, que está hoje muito mais rico do que se não tivesse sido apresentado e debatido no I Simpósio Internacional em Ciências das Religiões, promovido pelo PPGCR da UFPB.

Referências

BAGGINI, Julian. Atheism – A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2003, 116 páginas.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001, 2.922 páginas.

FEILER, Bruce. Pelos caminhos da Bíblia – Uma viagem através do Antigo Testamento. Tradução de Maria Luiza Newlands Silveira e Fernanda Rangel de Paiva Abreu. Rio de Janeiro: Sextante, 2002, 499 páginas.

GONDIM, Gilson Marques. Da Bíblia aos múltiplos universos – Velhas e novas visões da eternidade. Osasco: Novo Século, 2005, 248 páginas.

GOULD, Stephen Jay. Pilares do tempo – Ciência e religião na plenitude da vida. Tradução de F. Rangel. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, 185 páginas.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos – O breve século XX (1914-1991). Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 598 páginas.

McGRATH, Alister. The Twilight of Atheism – The Rise and Fall of Disbelief in the Modern World. Londres: Rider, 2004, 306 páginas.