Por que Serra vai ganhar, segundo o compositor Guarabyra

Lembram-se do cantor e compositor Guarabyra, da dupla Sá & Guarabyra? Pois não é que ele reaparece, não com uma canção genial, mas com uma análise política perfeita? Leiam o que ele disse, publicado na coluna de Dora Kramer, no jornal O Estado de São Paulo:

“O que especialistas em análise de pesquisas ainda não observaram é que, como o governo Lula em larga medida está mais para um governo de continuidade, já que abandonou quase totalmente as antigas bandeiras do petismo para adotar uma configuração mais tucana, o eleitor do PSDB não tem como dizer que não aprova a atual maneira de Lula atuar”.

“É o que explica a aparente contradição de metade dos eleitores que aprova o governo manifestar preferência eleitoral pela oposição. Ou seja, esses eleitores não deixaram de ser opositores. Apenas acham que a situação está governando de acordo com seus valores, mas vão votar em conformidade com os ideais em que sempre votaram.”

Eureca! Que insight maravilhoso, Guarabyra! Parabéns! Permita-me, porém, complementar sua explicação. A popularidade de Lula é feita de “ótimos” e “bons”. Os que acham Lula ótimo tendem a votar em Dilma. Contudo, os que acham Lula apenas bom, não ótimo, podem preferir Serra, por acharem que Serra vai ser ótimo. Ou podem achar que Serra não vai ser melhor do que Lula, mas vai ser melhor do que Dilma, já que Dilma não é Lula. Mesmo os que acham Lula ótimo podem achar que Serra vai ser tão bom quanto ele e que Dilma não conseguiria isso.

Aliás, o próprio Lula já disse com todas as letras que ninguém transfere 100% dos votos. Para eleger Dilma, ele teria que transferir para ela 83,5% dos 60% dos votos válidos que ele obteve no segundo turno em 2006. Ou seja, Dilma Rousseff precisa de um índice de transferência altíssimo, que Lula talvez conseguisse para um candidato mais forte (Ciro Gomes, por exemplo), mas não para uma neófita atrapalhada como Dilma. Se fosse uma eleição estadual ou municipal, em que a proximidade das bases e do povo com o centro do poder é muito maior, seria muito mais fácil a transferência. A transferência também se torna mais fácil quando o opositor não é muito forte ou tem rejeição muito alta. O segundo caso foi o de Quércia com Fleury contra Maluf na eleição estadual de 1990, em São Paulo. Quércia só precisou botar Fleury no segundo turno. A rejeição a Maluf fez o resto. Em 1992, Maluf se elegeu prefeito da capital porque capitalizou em cima da rejeição à então prefeita petista Luiza Erundina. Em 96, no município de São Paulo, Maluf emplacou Pitta porque a opositora, Luiza Erundina, continuava muito rejeitada, apenas quatro anos depois de ter deixado a prefeitura. Serra não tem índice alto de rejeição e é um nome forte. Não é um Maluf de 90 ou uma Erundina de 96. A tarefa de Lula é muitíssimo mais difícil que a de Quércia ou a de Maluf.

Em suma, Serra vai ser eleito porque é um nome forte (muito mais forte do que Dilma), não tem rejeição alta e é palatável para grande parte dos que aprovam Lula. Quem viver verá. Guarabyra neles!