Shalom?

Artigo originalmente publicado no Jornal da Paraíba em 20 de novembro de 2004.

Shalom em hebraico significa paz. Em árabe, é salam. Salam e shalom são também cumprimentos. A palavra portuguesa salamaleque vem das mesuras que os árabes faziam ao cumprimentar. Os protestantes brasileiros de hoje adoram a palavra shalom, assim como a estrela de Davi e tudo o que tenha a ver com o judaísmo e com o Estado de Israel. O termo é nome de livraria evangélica e é usado como saudação ao final de artigos escritos por alguns pastores. Considero esta judeofilia de nossos protestantes um fenômeno exótico. Não era assim no passado. Martinho Lutero, por exemplo, detestava judeus e fazia questão de deixar isso bem claro, com sua linguagem habitualmente rude. Os judeus eram os deicidas (assassinos de Deus), por terem provocado a morte física de Jesus Cristo, o Deus encarnado. Depois da 2ª Guerra Mundial, o complexo de culpa da civilização cristã levou a uma atitude mais leniente em relação aos judeus. Mas ainda não havia o verdadeiro culto aos hebreus que se pratica hoje. Este só começou em 1967, com a Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou dos árabes as Colinas de Golã, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental e tornou-se a ponta de lança do imperialismo americano no Oriente Médio. Vem daí o quadro atual, caracterizado por uma forte antipatia dos protestantes contra os muçulmanos e por uma intensa simpatia dos mesmos protestantes a favor dos judeus.

O mais interessante nisso tudo é que os muçulmanos são muito mais benevolentes em relação a Jesus do que os praticantes do judaísmo. Ambos – islâmicos e judeus – consideram o cristianismo uma religião politeísta, por causa da Santíssima Trindade, o estranhíssimo dogma de que Deus é um único ser composto de três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Os cristãos não conseguem explicar a doutrina da Trindade. Quando são apertados, acabam apelando para o mistério: “É um mistério; nós não conseguimos entender; mas é assim”. Os judeus e os crentes do islamismo não aceitam. E proclamam: “Eles adoram três deuses”. Os muçulmanos, porém, embora não aceitem Jesus como a encarnação de Deus, consideram-no uma figura extremamente benigna, um dos nove profetas do islamismo. Para os judeus, ao contrário, Jesus é um falso messias, ou seja, um farsante, um impostor. E mesmo assim nossos protestantes bajulam os judeus e detestam os muçulmanos. Dá para entender? Dá para entender a estrela de Davi como logomarca de um restaurante de comida nordestina pertencente a evangélicos?

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Articulistas evangélicos saudaram a morte de Arafat como a “morte de um terrorista”. O interessante é que Israel é um Estado fundado sobre o terrorismo. Foi com atentados terroristas que o Irgun e o Haganath, pais do partido Likud, atualmente hegemônico em Israel, expulsaram os britânicos da Palestina, assumindo o controle da região. O mais famoso daqueles atentados foi a explosão do Hotel Rei Davi, em Jerusalém, na qual morreram quase cem pessoas, inclusive muitos britânicos (militares e civis). O coordenador do atentado foi Menachem Begin (Menárrem Béguin), primeiro-ministro israelense nas décadas de setenta e oitenta. Begin foi premiado com o Nobel da Paz, juntamente com os presidentes Jimmy Carter, dos Estados Unidos, e Anuar Sadat, do Egito, em decorrência dos acordos de Camp David, que selaram a paz de Israel com o Egito devolvendo aos egípcios o deserto do Sinai, lugar sagrado para os judeus, porque lá teria ocorrido o Êxodo, a mítica viagem de quarenta anos dos hebreus entre o Egito dos faraós e Canaã, a Terra Prometida, a terra que pertencia aos cananeus e que hoje é disputada a tiros, bombas e pedradas por judeus e palestinos. Durante mais de dez anos, os israelenses vasculharam o Sinai à procura de sinais do Êxodo. Não acharam nada. Mas isto é assunto para outro artigo.